Visitar a Quinta da Ervamoira da Ramos Pinto é uma experiência única. O lugar inóspito e a dificuldade do acesso a partir de Muxagata, intensificam o deslumbre da chegada: um cenário fantástico que se revela ao dobrarmos o cume do monte. Toda a envolvente das vinhas, vestidas nos tons da época, fazem da experiência motivo suficiente para se regressar. A simpatia e a entrega da Sónia — que nos vai buscar, faz de guia da visita, serve à mesa e dirige as provas — torna o dia certamente inesquecível. Foi com ela também, enquanto motorista e cicerone, que visitámos as gravuras do Côa, ali bem perto. Gravuras a quem se deve a continuidade da quinta. A casa, de arquitectura despojada, restaurada com materiais tradicionais, é agradável e não compromete, ganhando maior expressão nas modernas instalações do piso térreo — o pequeno museu, galeria e loja — e no alpendre. O museu conta a história do lugar primitivo, do empreendimento da plantação da vinha e da casa Adriano Ramos Pinto desde o seu fundador até aos actuais proprietários (grupo francês ligado ao champanhe).
É reconhecido o pioneirismo de Adriano Ramos-Pinto em Portugal, na implementação de uma estratégia promocional para os seus vinhos, nomeadamente pela importância que atribuiu a uma imagem global de qualidade. Contratou autores estrangeiros de relevo para a execução dos seus cartazes, como Cappiello (o mais famoso dos cartazistas europeus, nos anos 10, segundo José Augusto-França), Metlicovitz e Rossotti. Em continuidade, embora já sem o carácter inovador de outros tempos, o actual design visual dos vinhos Ramos Pinto é cuidado. Alguns exemplos merecem mesmo nota de realce como o renovado Duas Quintas Reserva. O seu rótulo apresenta uma imagem fotográfica, a preto e branco, da bela Quinta de Ervamoira (que juntamente com a Quinta dos Bons Ares dá origem a este nome/vinho). Recurso pouco habitual em rótulos de vinho — sem nada que o justifique —, a fotografia regista e é o documento por excelência. Quando a preto e branco, ainda mais se reforça esse carácter documental, de pormenor denotativo, sem perder as suas qualidades expressivas. Imagem de grande qualidade e beleza que, combinada com a tipografia clássica, a preto e ouro, de apurado rigor formal e técnico (tanto no rótulo como no contra-rótulo), dão sequência ao profissionalismo imposto por Adriano Ramos-Pinto nas primeiras décadas do século XX.
Enquanto muitas das imagens artísticas (ou pseudo-artísticas) nos rótulos contemporâneos de vinhos nos desviam ou lhes retiram significado, a imagem da Quinta da Ervamoira no Duas Quintas Reserva tem a virtude de ser clara e de nos remeter para uma convergência de sentido. É por ela que o valor do lugar se venera porque, como afirmava Susan Sontag, "fotografar é atribuir importância".
segunda-feira, 29 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
O belo, o bom e o útil — Esporão Monocastas
Giambattista Bodoni, tipógrafo italiano do séc. XVIII, no seu Manuale Tipografico (Parma, 1818) referia o belo, o bom e o útil como atributos para a excelência na comunicação tipográfica. Adaptados aos dias de hoje, e no que concerne ao design, esses conceitos mantêm-se actuais. Os dispositivos gráficos (livros, cartazes, sites, rótulos, etc.) existem essencialmente para levar informação a quem dela necessita ou recorra — serem úteis. Quando expõem a informação com rigor formal e conceptual, sem ruídos, significa serem bons. Ao apresentarem a informação de modo a que toque a nossa sensibilidade e crie apetência, significa serem belos... No entanto sabemos que organizar muitos conteúdos informativos de forma clara, harmoniosa, e obter com o resultado valor expressivo, não é tarefa fácil. É quase sempre um desafio que põe à prova as competências dos designers.
A Herdade do Esporão tem vindo a renovar a imagem gráfica dos seus vinhos com critérios de excelência. Temos acompanhado de perto essa mudança e razões houve já para dela se falar aqui... Analisamos agora o conjunto dos novos Esporão Monocastas (Aragonês, Alicante Buschet e Touriga Nacional), vinhos alentejanos de qualidade reconhecida e preço considerável. Trata-se de uma mudança radical, mais do que necessária, num produto que o exigia. A nova imagem dos Monocastas assenta em três vectores fundamentais: informação textual exaustiva, informação iconográfica contida e ausência de elementos decorativos. A opção espartana da iconografia (parra das castas e mapa de localização de Portugal) parece esconder o cuidado apurado do design global. Mas uma atenção redobrada revela-nos o sentido expressivo dos pormenores. A utilização de relevo e verniz reforça esse sentido. A cor segue o mesmo critério de sobriedade. Cada vinho/casta é caracterizado por tons escuros, sofisticados e elegantes — cinza, azul plúmbeo e castanho — no logótipo, nos títulos do texto e sobretudo na gargantilha (atendendo à difícil execução técnica do nome na vertical, dispensava-se aqui a sua inclusão). É o texto (tipografia) que, contudo, domina a imagem da garrafa. Começando pelas iniciais, que se impõem pelo seu corpo, espessura e elegância geométrica de desenho. Estendendo-se depois por colunas harmoniosas e funcionais, bem compostas no mesmo tipo moderno, e impressas num papel cru, texturado, de formato considerável. Falam, de forma técnica e rigorosa — e sem os exageros apologéticos tão típicos em casos semelhantes — da vindima, da casta, do terroir... Como se de um jornal aberto se tratasse. Não cansam nem têm que ser lidas em sequência. O resultado é o da beleza da simplicidade funcional. Design que afirma e prestigia a relação entre a exigência do conteúdo e do contentor.
Ao evocarmos Bodoni, o Belo, o Bom e o Útil, relevamos a importância das funções num projecto de design. Ao mesmo tempo que reconhecemos que a beleza não tem que estar na decoração mas na própria funcionalidade. Sempre que utilidade, qualidade e beleza se fundem, emerge o melhor significado do design.
A Herdade do Esporão tem vindo a renovar a imagem gráfica dos seus vinhos com critérios de excelência. Temos acompanhado de perto essa mudança e razões houve já para dela se falar aqui... Analisamos agora o conjunto dos novos Esporão Monocastas (Aragonês, Alicante Buschet e Touriga Nacional), vinhos alentejanos de qualidade reconhecida e preço considerável. Trata-se de uma mudança radical, mais do que necessária, num produto que o exigia. A nova imagem dos Monocastas assenta em três vectores fundamentais: informação textual exaustiva, informação iconográfica contida e ausência de elementos decorativos. A opção espartana da iconografia (parra das castas e mapa de localização de Portugal) parece esconder o cuidado apurado do design global. Mas uma atenção redobrada revela-nos o sentido expressivo dos pormenores. A utilização de relevo e verniz reforça esse sentido. A cor segue o mesmo critério de sobriedade. Cada vinho/casta é caracterizado por tons escuros, sofisticados e elegantes — cinza, azul plúmbeo e castanho — no logótipo, nos títulos do texto e sobretudo na gargantilha (atendendo à difícil execução técnica do nome na vertical, dispensava-se aqui a sua inclusão). É o texto (tipografia) que, contudo, domina a imagem da garrafa. Começando pelas iniciais, que se impõem pelo seu corpo, espessura e elegância geométrica de desenho. Estendendo-se depois por colunas harmoniosas e funcionais, bem compostas no mesmo tipo moderno, e impressas num papel cru, texturado, de formato considerável. Falam, de forma técnica e rigorosa — e sem os exageros apologéticos tão típicos em casos semelhantes — da vindima, da casta, do terroir... Como se de um jornal aberto se tratasse. Não cansam nem têm que ser lidas em sequência. O resultado é o da beleza da simplicidade funcional. Design que afirma e prestigia a relação entre a exigência do conteúdo e do contentor.
Ao evocarmos Bodoni, o Belo, o Bom e o Útil, relevamos a importância das funções num projecto de design. Ao mesmo tempo que reconhecemos que a beleza não tem que estar na decoração mas na própria funcionalidade. Sempre que utilidade, qualidade e beleza se fundem, emerge o melhor significado do design.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
Grão Vasco Dão, duriense e alentejano
Al Ries, especialista americano de marketing e publicidade — conhecido como "guru das marcas" e autor do livro "A Origem das Marcas"—, dizia em entrevista à TSF que uma marca, para vingar, terá que remeter o mais possível para o mesmo conceito ou função. É pela convergência, como refere, que o consumidor reconhecerá a dimensão máxima de uma marca até ao extremo de chegar a confundir o conceito/produto genérico com o próprio nome/marca. Os exemplos Coca-Cola, Gilette, Kispo ou Bic são sintomáticos para percebermos a sua ideia.
Quando associamos o nome Grão Vasco ao vinho, o Dão impõe-se. Por razões óbvias mas, como também referiu Al Ries, porque o Grão Vasco Dão foi o primeiro a conquistar a mente dos consumidores. E já lá vão algumas décadas. Claro que o próprio pintor renascentista português (e não medieval como se diz no site, exuberantemente animado, de apoio ao vinho Grão Vasco) terá vivido e trabalhado por aquelas bandas. O museu com o seu nome e com a sua obra mais significativa — e que se aconselha visitar, depois da intervenção do arquitecto Souto Moura — também está situado em Viseu. Tudo isto são ligações que não podemos evitar. Desconhecemos se a estratégia comercial da Sogrape, ao associar o nome Grão Vasco a vinhos de outras regiões, tem êxito. Desconhecemos também os pressupostos que a determinaram. Nem compete a este espaço essa análise, mas a pergunta é legítima em termos de comunicação. Habituados que estávamos ao Grão Vasco como Dão, teremos agora, e contrariando a teoria de Al Ries, capacidade de mudar facilmente a nossa mente e aderir a um Grão Vasco duriense ou alentejano?
Claro que o propósito que determinou este artigo não foi o marketing mas o design visual da trilogia dos tintos Grão Vasco (a exemplo do que fizemos com os Borges Quintas). A nova imagem do conjunto é graficamente cuidada e, sem ser brilhante, reconhecemos nela o devido profissionalismo, como vem sendo habitual na Sogrape. Constatamos contudo que, para vinhos com características tão distintas, a solução de design gráfico é muito questionável. Serão poucos os que não hesitarão ao tirar da prateleira o Grão Vasco pretendido. A tipologia de garrafa, seguindo o compromisso borgonhês do Dão, também ajuda ao equívoco, a par da mesma organização formal dos rótulos e da sua tipografia. Enquanto elementos distintivos, reconhecemos apenas: a cor na gargantilha e correspondente banda cromática no rótulo (onde se insere o nome da região); o pormenor iconográfico da pintura de Vasco Fernandes (imagens muito próximas) e o texto descritivo das castas em corpo pequeno. Demasiadas subtilezas para o consumidor menos atento diferenciar. Ou será que a confusão é propositada?
Unir o que é de unir e separar o que deve ser separado é uma regra básica em comunicação visual. Apanhar a boleia do êxito nem sempre significa uma boa opção. Principalmente quando na mesma carruagem viajam personalidades vincadamente distintas. Quase sempre tendem a confundir-se e, por consequência, a esbater-se.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Crítica cega ao design Borges Quintas
Um rótulo de um vinho não tem que contar uma história nem tem que recorrer sempre a elementos narrativos e simbólicos. A sua função principal é identificar e distinguir, e só depois caracterizar. Para cumprir estes propósitos, a cor, enquanto elemento comunicativo, pode ser uma opção inteligente.
A qualidade da nova imagem dos vinhos Borges Quintas (Verde, Douro e Dão) merece ser reconhecida. Principalmente porque, perante o programa difícil, a solução de design é eficaz. ("Programa" é, quanto a nós, o melhor termo português para substituir o badalado "briefing"). A proposta de unificar e diversificar em simultâneo não é fácil, isto é, através de argumentos de design gráfico, uma mesma marca/nome comunicar produtos tão distintos como vinhos Verde (branco), Douro e Dão (tintos). Assim, o elemento central da estratégia de design foi a cor. Ainda que a tipologia de garrafas ajude nessa caracterização (o Dão impõe a garrafa borgonhesa), as cores expressivas dos rótulos trouxeram uma forte distinção — identidade — e alguma caracterização e simbolismo. A solução do verde (mais frio), do amarelo (mais quente e intenso) e do rosa (quente mas mais macio) tem carácter e modernidade assumida. Tonalidades bem escolhidas, nada banais, que ligam com o preto do quadrado (marca) e da base do rótulo, elementos comuns à série. O contraste do verniz da marca/texto com a superfície mate (do papel) aveludada da cor, amplia o valor estético. A opção tipográfica é elegante e irrepreensível na composição. O uso de um só tipo de letra – moderno, não serifado – para os três vinhos acentua o carácter contemporâneo e faz a fusão entre eles. Nos contra-rótulos, o rigor informativo e o arranjo gráfico revelam o profissionalismo do design global.
A imagem gráfica Borges Quintas assume-se assim, claramente, como a melhor de toda a produção Borges (algo desigual em critérios de design) e uma das mais elegantes e modernas dos últimos tempos de vinhos portugueses.
O título deste artigo surgiu a propósito de, num almoço recente com duas amigas (designers e ex-alunas na FBAUP), a autoria da imagem dos vinhos em causa nos ter sido revelada. O post estava quase pronto, por isso a conversa contornou habilmente o assunto.
O objectivo deste blogue não é promover ou despromover pessoas; antes reconhecer as qualidades do trabalho de design dos vinhos ou apontar a falta delas. Sabemos que o design se justifica pelo processo, mas é pelo resultado que a sua qualidade deve ser avaliada. Quantas vezes o reconhecimento dessa qualidade não vem apenas associado à notoriedade do seu autor? Ao apelidarmos de "crítica cega", estabelecendo a analogia com as provas cegas de vinhos, pretendemos aclamar a crítica ao design independente do seu autor.
A qualidade da nova imagem dos vinhos Borges Quintas (Verde, Douro e Dão) merece ser reconhecida. Principalmente porque, perante o programa difícil, a solução de design é eficaz. ("Programa" é, quanto a nós, o melhor termo português para substituir o badalado "briefing"). A proposta de unificar e diversificar em simultâneo não é fácil, isto é, através de argumentos de design gráfico, uma mesma marca/nome comunicar produtos tão distintos como vinhos Verde (branco), Douro e Dão (tintos). Assim, o elemento central da estratégia de design foi a cor. Ainda que a tipologia de garrafas ajude nessa caracterização (o Dão impõe a garrafa borgonhesa), as cores expressivas dos rótulos trouxeram uma forte distinção — identidade — e alguma caracterização e simbolismo. A solução do verde (mais frio), do amarelo (mais quente e intenso) e do rosa (quente mas mais macio) tem carácter e modernidade assumida. Tonalidades bem escolhidas, nada banais, que ligam com o preto do quadrado (marca) e da base do rótulo, elementos comuns à série. O contraste do verniz da marca/texto com a superfície mate (do papel) aveludada da cor, amplia o valor estético. A opção tipográfica é elegante e irrepreensível na composição. O uso de um só tipo de letra – moderno, não serifado – para os três vinhos acentua o carácter contemporâneo e faz a fusão entre eles. Nos contra-rótulos, o rigor informativo e o arranjo gráfico revelam o profissionalismo do design global.
A imagem gráfica Borges Quintas assume-se assim, claramente, como a melhor de toda a produção Borges (algo desigual em critérios de design) e uma das mais elegantes e modernas dos últimos tempos de vinhos portugueses.
O título deste artigo surgiu a propósito de, num almoço recente com duas amigas (designers e ex-alunas na FBAUP), a autoria da imagem dos vinhos em causa nos ter sido revelada. O post estava quase pronto, por isso a conversa contornou habilmente o assunto.
O objectivo deste blogue não é promover ou despromover pessoas; antes reconhecer as qualidades do trabalho de design dos vinhos ou apontar a falta delas. Sabemos que o design se justifica pelo processo, mas é pelo resultado que a sua qualidade deve ser avaliada. Quantas vezes o reconhecimento dessa qualidade não vem apenas associado à notoriedade do seu autor? Ao apelidarmos de "crítica cega", estabelecendo a analogia com as provas cegas de vinhos, pretendemos aclamar a crítica ao design independente do seu autor.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Sites e desconfianças
Um site é hoje, para um produtor/empresa de vinhos, um dispositivo de comunicação tão ou mais importante do que os rótulos das garrafas. Representa um espaço informativo, de credibilidade e de divulgação por excelência – mas também de negócio. Quase todos os produtores que se apresentam com um design de rótulos deficiente (para não dizermos mau) têm sites a condizer. Estarão convencidos do contrário, mas isso ainda piora a avaliação do nível cultural do sector. A maioria dos produtores é mal aconselhada no que toca ao design de comunicação. Muitos nem aceitarão que isso se faça. Decidem "estrategicamente" pelo seus critérios pessoais ou pelo que espiam no vizinho mais acima. A falta de confiança em quem sabe — e a desconfiança — é um dos grandes males portugueses. Atribuir o poder de uma decisão a outrem e reconhê-la como boa é algo que os nossos empresários parece abominarem. O receio das ideias dos outros (reconhecidamente competentes, é claro) instalou-se, generalizou-se e demora a combater. Para mal da imagem do país, nomeadamente no sector dos vinhos, onde a internacionalização é um facto. E porque "olhar para o lado" é tão apetecido entre nós — no que toca ao design — dá vontade de sugerir aos produtores portugueses que ponham os olhos nos argentinos.
Um site de uma empresa de vinhos não deve ser implementado tendo em consideração apenas o gosto de quem a dirige. Mesmo que a empresa seja familiar e que tenha esse lema como condição. O site é um dispositivo de consulta, público, que deve obedecer a critérios determinados pela sua função e pelo seu uso. É, pois, pela funcionalidade do acesso, pela clareza da arquitectura da informação e pelas respostas que se obtêm, em tempo certo, que o classificamos de bom. Ainda que a poética e expressão artística sejam importantes. A par, claro está, de um carácter simbólico que não desvirtua a mensagem do produto que comunica: vinhos de uma região determinada.
Posto assim, num parágrafo, poderá parecer fácil opinar sobre design de comunicação; mas sabemos que leva anos a aprender a sua linguagem.
Um site de uma empresa de vinhos não deve ser implementado tendo em consideração apenas o gosto de quem a dirige. Mesmo que a empresa seja familiar e que tenha esse lema como condição. O site é um dispositivo de consulta, público, que deve obedecer a critérios determinados pela sua função e pelo seu uso. É, pois, pela funcionalidade do acesso, pela clareza da arquitectura da informação e pelas respostas que se obtêm, em tempo certo, que o classificamos de bom. Ainda que a poética e expressão artística sejam importantes. A par, claro está, de um carácter simbólico que não desvirtua a mensagem do produto que comunica: vinhos de uma região determinada.
Posto assim, num parágrafo, poderá parecer fácil opinar sobre design de comunicação; mas sabemos que leva anos a aprender a sua linguagem.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Os nomes dos vinhos
Reconhecemos que não deve ser fácil hoje em dia arranjar e aprovar um nome (dito) apelativo para um vinho, saindo da nomenclatura das quintas e dos lugares de cultivo da vinha. O impedimento de usar nomes de castas esgota referentes. Estabelecer uma ligação entre o nome e as características do vinho ou do lugar em questão parece ser uma atitude lógica. Contudo, sabemos que excessos de referências óbvias traduzem-se quase sempre em literalidade aborrecida. Mas não há necessidade de baptizar vinhos com carácter, vinhos sérios, com infantilidades, defeitos humanos, ou até mesmo com nomes "nonsense". Na ânsia de novidade e no deslumbre pela diferença, tem surgido ultimamente muita falta de bom senso e muitos disparates à mistura.
Gambozinos (coisa indefinida, inexistente, com que nos enganavam na infância), Egoísta (característica humana, desajustada dos valores civilizacionais actuais de solidariedade), Irreverente (atributo de quem não tem reverência, respeito pelo outro, mal-educado), Yes We Can (cópia do slogan da campanha política americana) são, entre tantos outros, nomes de vinhos portugueses que enunciam o que se disse.
Não há uma fórmula para criar um nome apelativo, simbólico e mnemónico como alguns fazem crer. Temos exemplos de nomes de vinhos prestigiados com características diversas (curtos, longos, sincopados, fechados, abertos, literais, abstractos, decifráveis, mudos, portugueses, estrangeiros...). O nome, tal como o design visual, não faz um vinho. Nem devemos esperar dele mais do que a capacidade de nomear e fixar o produto se este nos deixou referências. Pelo sim pelo não, o nome da quinta ou do lugar — quando exista bem definido — é sério e, se aprovado, não desmerecerá. Por ser tradicional em nada implica com o valor comunicativo. É que Maria e António são hoje nomes de crianças na moda, transversais a toda a nossa sociedade; depois de Constança e Martim, numa faixa, e de Vanessa e Rúben, na outra, terem feito furor.
Gambozinos (coisa indefinida, inexistente, com que nos enganavam na infância), Egoísta (característica humana, desajustada dos valores civilizacionais actuais de solidariedade), Irreverente (atributo de quem não tem reverência, respeito pelo outro, mal-educado), Yes We Can (cópia do slogan da campanha política americana) são, entre tantos outros, nomes de vinhos portugueses que enunciam o que se disse.
Não há uma fórmula para criar um nome apelativo, simbólico e mnemónico como alguns fazem crer. Temos exemplos de nomes de vinhos prestigiados com características diversas (curtos, longos, sincopados, fechados, abertos, literais, abstractos, decifráveis, mudos, portugueses, estrangeiros...). O nome, tal como o design visual, não faz um vinho. Nem devemos esperar dele mais do que a capacidade de nomear e fixar o produto se este nos deixou referências. Pelo sim pelo não, o nome da quinta ou do lugar — quando exista bem definido — é sério e, se aprovado, não desmerecerá. Por ser tradicional em nada implica com o valor comunicativo. É que Maria e António são hoje nomes de crianças na moda, transversais a toda a nossa sociedade; depois de Constança e Martim, numa faixa, e de Vanessa e Rúben, na outra, terem feito furor.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Mudar de imagem
As mudanças no design de imagem de um qualquer produto ou serviço a que nos habituámos, a acontecerem, deveriam ser significativa e justificadamente para melhor. Razões há, de sobra, para que as mudanças aconteçam mas quantas vezes isso não se verifica?! O novo logótipo do Multibanco (pouco expressivo em visibilidade e distinção), o de Serralves (com o L obtuso, amadoramente combinado com a letra A) ou o da Água do Luso (colando-se à moda, mas deixando cair o carácter temporal do anterior tipo serifado), parecem ser exemplos claros do que pretendemos afirmar. Estas acções tanto em voga, apelidadas de "redesign", "refreshing" ou "rebranding", são quase sempre acompanhadas por extensos relatórios e narrativas fantasiosas, mas a maioria das vezes não passam de ligeiras alterações de imagem visual – vestimenta – acompanhadas do discurso "da banha da cobra". No fim, ficam os consumidores com a sensação de que lhes trocaram as voltas e o autor da ideia satisfeito, porque mostrou serviço. Ganha, sem dúvida, a empresa que executou o trabalho.
O Quinta dos Aciprestes, Douro Tinto da Real Companhia Velha, é um vinho cuja relação qualidade/preço é reconhecida. A alteração do seu rótulo enquadra-se no que atrás se disse. O papel brilhante, avivado pelo fundo preto, continua a remetê-lo para um vinho de qualidade inferior. Se o rótulo antigo apresentava uma composição gestual onde se adivinhavam aciprestes, a nova versão apresenta uma imagem de socalcos sem qualquer carácter expressivo, ambas num cromatismo agressivo e desajustado. A ilustração ficou ainda mais pobre e insipiente na sua retórica (enquanto desenho, representação simbólica e originalidade). A tipografia mudou para uma comunicação mais clássica (tipos serifados e alinhamento simétrico), mas continua a faltar-lhe erudição. A casa produtora, o vinho, a quinta, o próprio nome "Quinta dos Aciprestes" mereciam muito mais.
Valeu a pena a mudança? Não. Quando assim é, e para o consumidor, é quase sempre melhor o que estava.
O Quinta dos Aciprestes, Douro Tinto da Real Companhia Velha, é um vinho cuja relação qualidade/preço é reconhecida. A alteração do seu rótulo enquadra-se no que atrás se disse. O papel brilhante, avivado pelo fundo preto, continua a remetê-lo para um vinho de qualidade inferior. Se o rótulo antigo apresentava uma composição gestual onde se adivinhavam aciprestes, a nova versão apresenta uma imagem de socalcos sem qualquer carácter expressivo, ambas num cromatismo agressivo e desajustado. A ilustração ficou ainda mais pobre e insipiente na sua retórica (enquanto desenho, representação simbólica e originalidade). A tipografia mudou para uma comunicação mais clássica (tipos serifados e alinhamento simétrico), mas continua a faltar-lhe erudição. A casa produtora, o vinho, a quinta, o próprio nome "Quinta dos Aciprestes" mereciam muito mais.
Valeu a pena a mudança? Não. Quando assim é, e para o consumidor, é quase sempre melhor o que estava.
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