quinta-feira, 10 de março de 2011

De partir o coração – Nota breve III

Há rótulos de vinho que, pior do que serem maus tecnicamente, são incompreensíveis nos dias de hoje... A todos os níveis. O vinho Ping'amor Reserva, da Casa Agrícola Paciência, é um caso paradigmático. O seu rótulo, de formato exótico, para além de não comunicar quase nada, é formalmente deprimente. Apresenta o nome do vinho – de gosto no mínimo duvidoso – em texto mal composto, cores desajustadas que cortam o contraste necessário à boa leitura e umas aspas/pingos horizontais (?) sem que se perceba o seu sentido. O único dado que acrescenta para o consumidor é a palavra Reserva. O contra-rótulo lá vai incluindo a informação obrigatória, embora desordenada, sem critérios hierárquicos e de legibilidade. No meio desta anarquia tipográfica podemos ler o seguinte "poema": "Envolvente e sedutor, para momentos inesquecíveis". Depois de rodarmos a garrafa algumas vezes, descobrimos que afinal rótulo e contra-rótulo formam um coração partido em dois.

Que envolvimento e sedução nos pode trazer um vinho com uma imagem destas?! Uma coisa é certa: trata-se de um rótulo que parte realmente o coração...

terça-feira, 1 de março de 2011

A retórica do vazio

A importância que os valores simbólico e estético têm hoje numa garrafa de vinho, e à volta dela, merece reflexão. O que hoje se espera de um rótulo, ou de uma imagem global de um vinho, não é mais o dispositivo informativo (e de imposição normativa quantas vezes desajustada em critério gráfico e no tempo) mas antes uma narrativa a transbordar significados. Cumprida a primeira fase, os rótulos – tal como a comunicação publicitária em geral –, tornam-se cada vez mais narrativas carregadas de valores estético e simbólico, de apelo aos nossos sentidos. Estas mensagens constroem-se normalmente demasiado distantes do produto, do cliente ou da interacção entre ambos. Por isso denotam algum desprezo pelo receptor, pela sua leitura e interpretação.

O vinho 8 (oito), da Adega Mayor, é um bom exemplo do que atrás se disse. O vinho chama-se 8 mas estamos em crer que se poderia chamar 437, ou 5, ou até 0. Razões haveria para o justificar com facilidade e pretensa erudição. Tal como se justifica o vinho 7: "7 artes, 7 dias da semana, 7 pecados mortais, 7 graus da perfeição, 7 chakras da nossa energia" (sic). Sobre o 8, podemos ler: "No dia 08/08/2008 o mundo assistiu à abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. 
Nesse mesmo dia, às 8 da manhã em Portugal, 8 pessoas começaram a encher a primeira de 8008 garrafas numeradas, celebrando o espírito da criação." E o filme promocional do vinho termina com: "8 não é muito nem pouco, é eterno!" A construção até pode ser bonita, poética, metafísica (numerologia?) ou supersticiosa mas... e depois?

A embalagem e o rótulo do vinho 8 seguem as pisadas da sua retórica "conceptual" mas agora em exercício estilístico puro. A imagem é, sem dúvida, original, como pretendem os seus promotores. Tem um grafismo cuidado e foi inclusivamente premiada em concurso promovido por uma revista de marketing e publicidade. Reconhecemos que o recurso à literalidade, à "mera" função, à evocação de um qualquer produto se pode tornar pobre e aborrecida; mas a "banha da cobra" (qual memória descritiva de escola) que nos tentam impingir para vender o vinho, descredibiliza o próprio vinho e quem o faz, o design e a comunicação séria. É demasiado investimento no lado errado, no lado de fora do programa. Ainda que rico em elementos, torna-se um discurso difícil de agarrar. Escapa-se por entre os dedos porque é, acima de tudo, um discurso vazio.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Despida de carácter

A representação naturalista nas artes revela-se hoje como uma atitude muito pouco crítica e inventiva, nada consentânea com o nosso tempo; mas despida (pelada) de erudição, qualquer estilização plástica torna-se num mamarracho. Exemplos destes abundam hoje nas nossas rotundas, geralmente iniciativa de autarcas dinâmicos mas muito pouco cultos. (E sabemos bem as consequências da aliança entre o dinamismo e a ignorância). Custa a entender porque é que a beleza de uma árvore não pode, na maioria das vezes, "decorar a nudez" de uma rotunda em vez do irritante mamarracho escultórico. A Natureza apresenta, por si só, a beleza intrínseca de o ser (daí evocarmos amiúde o conceito de beleza natural). Em contrapartida, a estilização pode ser entendida como a incapacidade humana de igualar a Natureza, ou a tentativa de se sobrepor à sua ordem. No que toca ao design, Charles Eames referia mesmo, numa recomendável entrevista em 1972, que os estilos em design são mais o resultado de uma fragilidade humana do que um ideal.

O vinho Pelada Dão 2003, de Álvaro Castro, apresenta um rótulo atrevido, exótico... Mas mau. É atrevido porque conjuga a ambiguidade do nome da quinta com a nudez e porque a nudez é, ainda na nossa cultura, motivo de inquietação moral (Maria João de Almeida também o referiu numa crónica no seu portal). O rótulo é formalmente exótico porque pretende ser diferente ao repartir-se por três elementos, embora nada justifique essa complexidade. A expressão gráfica do título do vinho é débil, composto num tipo de letra digital que pretende imitar a caligrafia (nunca é a mesma coisa!) e na vertical, dificultando a leitura. A ilustração é artisticamente medíocre e desagradável: estilização de um corpo feminino executada por alguém que pensa que tem jeito. Braço e perna ligados, entrelaçados e unidos a uma bordadura através de um mau desenho manual/digital sem elegância, expressão e sentido anatómico. Tudo isto impresso num papel desajustado, canelado (em jeito de economato de prestígio), pouco recomendado para uma ilustração.

Por hoje se crer em demasia que todo o atrevimento, irreverência e exotismo se justificam, vemos surgir tão maus resultados de imagem de vinhos onde menos se esperaria. É o caso deste vinho de qualidade, oriundo de um produtor de grande prestígio e confiança. O rótulo Pelada Dão 2003, não estando à altura do seu vinho, em vez de o vestir com dignidade e, porque não, também, com sedução erótica, desnuda-o definitivamente. E um corpo assim, pelado, torna-se muito pouco atraente.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Letras "espremidas" - Nota breve II

O autor dos rótulos Quinta da Revolta, do produtor Veredas do Douro Sociedade Agrícola Lda, deveria saber que as letras não são uvas e, por isso, não se devem "espremer". Um tipo de letra, qualquer que ele seja, tem uma autoria e deu trabalho a desenhar, a conseguir a sua proporção, a sua identidade. Que outros, por desconhecimento do que isso representa, lhe destruam a matriz, a eficácia e a harmonia — condensando-o ou expandindo-o — é mau e é, quase sempre, um "crime" que não compensa. Se a justificação é a falta de espaço, existem, e aconselham-se, versões condensadas ou expandidas de origem, em vez do recurso a deformações grosseiras.

O tipo de letra Optima, usado no caso que se ilustra, é um dos desenhos de letra mais originais do reconhecido designer tipográfico alemão Hermann Zapf.  Executado nos anos 50, ainda hoje mantém um uso considerável e a preferência de muitos designers gráficos. Sujeito a várias imitações e derivações, este tipo humanístico não serifado (sem patilhas) possui, por isso mesmo, um estatuto de grande originalidade genética.

Casos como este demonstram uma grande falta de cultura, de rigor profissional e nenhum respeito pelo trabalho de um "colega". E vistos por este prisma, revolta!


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Luxo e lixo visual - Nota breve I

A generalidade dos vinhos sul-africanos que nos chegam surpreende-nos quase sempre pelo seu design gráfico. Acima de tudo pela tipografia clássica bem composta, traduzida numa elegância, equilíbrio e rigor que ultrapassa os nossos melhores exemplares. Mas também pelo recurso ao preto e ao ouro, e à gravura, que marcam e definem claramente um território semântico. O vinho, mesmo o mais económico de uma qualquer região demarcada é, ainda, um produto de valor simbólico elevado. Assim, vinhos de preço acessível tornam-se preciosidades visuais. Sabemos o efeito que isso tem nos consumidores menos especializados e, consequentemente, nas vendas. É abusivo ou anacrónico? Não. Abusivo e anacrónico são vinhos caros ostentando rótulos de autêntico "lixo visual".

Os portugueses — sempre tão afoitos a espreitar o vizinho — ainda não conseguiram implementar uma imagem distinta nos seus vinhos. E nem serão necessárias estratégias de marketing ou estudos sociológicos para justificar a opção. Basta lembrar a frase do famoso carnavalesco brasileiro Joãosinho Trinta: "quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de luxo."

domingo, 31 de outubro de 2010

"Rotulus" Brutalis

O vinho Brutalis 2005, das Caves Vidigal (Leiria), afirma-se ostensivamente como um vinho distinto. Uma ideia que nos agrada sobremaneira. Declara, no seu contra-rótulo, que é contra a globalização e massificação tipológica a que hoje vamos assistindo nos vinhos. De facto, o sentido comercial tem determinado o esbater das diferenças no actual panorama do vinho. É que vinhos para se beberem a todas as horas, e em quaisquer circunstâncias, tendem a ser vinhos com menor carácter. Sabemos que fazer dinheiro com a venda de vinho será semelhante a fazer dinheiro com a venda de um outro produto qualquer. E isso implica forçosamente estratégias de padronização e quantidade. Estratégias que vendem mas que serão contrárias à produção singular, que segue o terroir e as características regionais das castas, da cultura local e do clima.

O Brutalis, ao pretender ser um grito contra essa padronização, apresenta uma imagem que não ajuda. Ainda que lembre remotamente um manifesto — o que seria interessante e coerente —, as componentes gráfica, expressiva e técnica do seu rótulo são de má qualidade. Ausência de critério nas opções pelos diversos tipos de letra, nos seus pesos, na composição do texto (confusa e a preencher todo o espaço); terminando numa má impressão em papel duvidoso... Uma brutalidade (e não "brutal" de espanto, como se desejava), para usar o título do vinho.

Parece que os vinhos interessantes se vêem cada vez mais condenados a serem apenas vinhos simpáticos (à falta de outro adjectivo).  Tal como os rótulos. Fazem falta neste universo da massificação – vínica e gráfica – os gritos e os "manifestos". Mas apenas aqueles cujo conteúdo, propósito, rigor de discurso e de forma se assumam por inteiro e com coerência. Senão viram-se contra si mesmos e confundem-se com mais uma birra de menino irreverente, mal educado.



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Galhofa tipográfica

Subsiste hoje, em Portugal, entre os jovens designers gráficos, uma febre pela tipografia que tarda em amainar... (Actualmente, chama-se tipografia ao estudo/saber e uso das letras. Não é mais a empresa que imprime os rótulos, as facturas ou os catálogos.) Esta área de conhecimento, que esteve arredada dos currículos académicos — mesmo os mais especializados — até à década de 70, afirmou-se pois tardiamente, tornou-se moda e encantou muitos designers. A ponto de os cegar. Pelo menos no que toca à visão das prioridades na comunicação escrita, isto é, sempre que a obsessão pela forma (desenho) das letras e sua composição (critérios de organização do texto) se sobrepõe ao conteúdo, à legibilidade e ao conforto visual do leitor. E, quantas vezes, ao próprio sentido da mensagem.

Temos referido com alguma insistência a má qualidade tipográfica dos rótulos e contra-rótulos dos vinhos portugueses. Mesmo os rótulos dos vinhos de qualidade e de preço elevado. E seria "tão fácil" seguir — no mínimo — critérios de rigor técnico quando não se conseguem atingir os da eloquência!... 

O rótulo do vinho Fraga da Galhofa, Douro 2007 Tinto (tal como o Branco e o Rosé), da Vinilourenço é, de facto, uma galhofa tipográfica. Representa o encantamento de que falávamos, traduzido na má expressão tipográfica. Alia uma miscelânea de corpos (tamanhos) de letras no título (quando a opção foi por um tipo clássico) à tentativa de figurar um galho de videira com parras e cacho de letras (!). Remete a informação que mais pode interessar ao consumidor para um formato legenda, na vertical, e em corpo menor. Resultado: rótulo pouco funcional, má ilustração, título anacrónico e desequilibrado e design global pouco sério. É que "galhofa" significa "brincadeira", "gracejo" ou "escárnio"... E se o nome da Fraga que dá título ao vinho já é "da Galhofa", será inapropriado acentuar o conceito. Um vinho sério e bem feito, como este, merecia um rótulo a condizer e não a imagem tipográfica que exibe.

Em jeito de conclusão, valerá a pena citar a máxima de um amigo: Letras são letras e conhaque é conhaque!