domingo, 2 de maio de 2010

Rótulos de artistas

Um artista, hoje, encontra normalmente a solução para a sua actividade quando se encanta com um problema. Um designer, pelo contrário, ao partir de um problema, encanta-se com a solução para o resolver. Assim se entende, de uma forma muito singela, a diferença entre arte e design. Ambas as disciplinas recorrem a elementos discursivos, meios e técnicas semelhantes mas é no objectivo que perseguem que se encontra a grande diferença. O objectivo funcional, de enfatizar a importância do programa, da informação e da leitura em detrimento do autor, da expressão e da interpretação faz toda a diferença. E define o design como uma arte assumidamente aplicada. Um rótulo, ou uma imagem global de um vinho, terá que obedecer sempre a um programa bem definido: que tipo de vinho?, que região?, que terroir?, que características (orgânicas, técnicas e simbólicas)?, que implicações normativas?, que consumidores?, que nome?, que pretensões tem quem o trabalha?, etc.  São questões como estas que determinam um programa e que requerem, para a sua equação e resposta, uma prática analítica, metódica e projectual exigente. Que obriga a conhecimento específico, nomeadamente de design gráfico e tipografia (maior mal dos rótulos portugueses) para lá da iconografia, das técnicas de impressão, de uma cultura própria, etc. Além de uma disposição natural para lidar com constrangimentos e dialogar com clientes. A tudo isto um artista responde normalmente com dificuldade. Não está na natureza do seu trabalho.


Os rótulos da marca Monte do Pintor da Sociedade Agrícola da Sossega, Lda são pobres visual e funcionalmente: Escultor, Monte do Pintor Reserva, Monte do Pintor e Pequeno Pintor. A qualidade do seu design fica muito aquém da excelência do seu vinho: iconografia insípida (esboço de sobreiros, demasiado primário); texto manuscrito de mau desenho (no rótulo "Pequeno Pintor 2006" é mesmo muito mau); tipografia do chamado contra-rótulo pouco exigente. Resultado: carácter, expressão e impacto visual mudos. Contudo, a empresa exprime com algum entusiasmo no seu site (de design igualmente débil) que os rótulos "são de autoria do Escultor Português João Cutileiro"! Não questionamos o reconhecimento e importância do artista na história da arte portuguesa do séc. XX — nomeadamente na renovação da escultura e até da estatuária portuguesa nas décadas de 60 e 70 —, mas pomos em causa o valor/resultado da sua contribuição. Percebemos as ligações apetecíveis entre o vinho e o prestígio do artista, o Alentejo comum, e outras que porventura desconhecemos; mas nada justifica a má solução apresentada.


Num bom design, todas as ampliações de sentido podem acontecer depois de cumpridas as exigências do seu programa básico. Programa esse determinado sempre pelo objectivo, independente da maior ou menor disposição que cada autor tem para lidar com os constrangimentos inerentes.




terça-feira, 20 de abril de 2010

Artistas e rótulos

Nenhum rótulo de vinho ganha eficácia ou eloquência por inserir, chapado, o "cromo" de um artista famoso. A reprodução de obras de artistas célebres tem sido, ao longo dos tempos, uma tendência de algumas casas/marcas de vinhos como recurso e estratégia visual. São sobejamente conhecidos os rótulos da casa Château Mouton Rothschild que, desde 1946, reproduzem obras de Dalí, Miró, Chagall, Kandinsky, Picasso, Andy Warhol... Em Portugal, obras de Cargaleiro, Resende, Pomar, Siza Vieira, José de Guimarães, Cabrita Reis, etc., têm aparecido nos últimos anos estampadas em rótulos de várias casas produtoras. Tentativa de prestigiar o vinho através das Belas-Artes (as ditas nobres), reconhecemos contudo que, na maioria das vezes, a qualidade comunicativa desses rótulos não apresenta qualquer valor acrescido para além da estampa mais ou menos famosa que exibem. É estritamente sobre os planos simbólico (do prestígio do autor) e decorativo (do valor plástico) que estas imagens actuam. Design e arte apresentam assim, normalmente, dois discursos paralelos — que não se encontram. Ainda que o discurso gráfico-plástico de cada artista seja notoriamente distinto ou eloquente, o resultado global pode ver anulada essa característica quando o design do rótulo se revela insípido ou mesmo mau. 

Defendemos a ideia que o melhor design (em qualquer artefacto ou mensagem) é aquele que nos permite estabelecer o maior número de ligações de sentido. Se se pretende ancorar a expressão e o prestígio de um determinado artista ao vinho ou à empresa, a solução terá de passar por um projecto coordenado por um designer competente. Um rótulo é sempre um dispositivo de design visual. Texto, imagem e vinho — ou design, arte e vinho — sendo bem distintos, podem conviver em perfeita sintonia desde que se compreendam e não se atropelem. Todos ganham se as ligações forem perfeitas.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Hans Christian Andersen

Comemora-se hoje o 205º aniversário de Hans Christian Andersen, considerado o maior escritor de literatura para crianças. E, por causa dele, assinala-se nesta data o Dia Mundial do Livro Infantil. Ainda que muitos digam que não há literatura para crianças — há apenas literatura — , o que é certo é que o destinatário determina um conjunto de decisões e formalidades que acabam por a caracterizar como género.

Pouca relação encontraremos entre livros para crianças e Hans Christian Andersen e a imagem do vinho em Portugal. A sua inclusão neste blogue poderá até parecer despropositada. A cultura espalha-se cada vez mais, contaminando todas as áreas, revelando-se hoje mais pelo seu carácter horizontal do que vertical. Acontece que a empresa Cortes de Cima em boa hora dedicou ao escritor dinamarquês um vinho seu. Trata-se do Homenagem a Hans Christian Andersen, um monocasta Syrah comercializado a partir das vindimas de 2003, 2004 e 2007. (Não é estranho o facto desta empresa familiar ser de dinamarqueses). Pena que, a exemplo do que acontece com a generalidade dos rótulos Cortes de Cima, a sua imagem não acompanhe a qualidade dos seus vinhos. Sem serem desprestigiantes nem funcionalmente maus, o design e ilustração dos rótulos são demasiado insípidos e sem grande carácter. Refugiando-se em ilustrações pouco interessantes (quer semântica quer de expressão artística), no texto justificado e composto repetidamente no tipo Rotis, pouco neles poderemos valorizar. Design singelo e de baixo custo, quase amador ou caseiro, poderia considerar-se uma virtude se o propósito não fosse "comunicar" vinhos com qualidade, de preço e expansão comercial consideráveis.

Quando o envolvimento no que fazemos se sobrepõe ao propósito e às suas exigências, tende a tolher-nos e a tornar a nossa comunicação uma auto-expressão que poderá interessar muito aos nossos netos mas certamente pouco a quem servimos e menos à cultura em geral. Propomos por isso, hoje, evocar a obra, talento e universalidade do dinamarquês Hans Christian Andersen ao mesmo tempo que fazemos votos para que Cortes de Cima nivele a qualidade do seu design pela qualidade dos seus vinhos.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ervamoira em retrato

Visitar a Quinta da Ervamoira da Ramos Pinto é uma experiência única. O lugar inóspito e a dificuldade do acesso a partir de Muxagata, intensificam o deslumbre da chegada: um cenário fantástico que se revela ao dobrarmos o cume do monte. Toda a envolvente das vinhas, vestidas nos tons da época, fazem da experiência motivo suficiente para se regressar. A simpatia e a entrega da Sónia — que nos vai buscar, faz de guia da visita, serve à mesa e dirige as provas — torna o dia certamente inesquecível. Foi com ela também, enquanto motorista e cicerone, que visitámos as gravuras do Côa, ali bem perto. Gravuras a quem se deve a continuidade da quinta. A casa, de arquitectura despojada, restaurada com materiais tradicionais, é agradável e não compromete, ganhando maior expressão nas modernas instalações do piso térreo — o pequeno museu, galeria e loja — e no alpendre. O museu conta a história do lugar primitivo, do empreendimento da plantação da vinha e da casa Adriano Ramos Pinto desde o seu fundador até aos actuais proprietários (grupo francês ligado ao champanhe).

É reconhecido o pioneirismo de Adriano Ramos-Pinto em Portugal, na implementação de uma estratégia promocional para os seus vinhos, nomeadamente pela importância que atribuiu a uma imagem global de qualidade. Contratou autores estrangeiros de relevo para a execução dos seus cartazes, como Cappiello (o mais famoso dos cartazistas europeus, nos anos 10, segundo José Augusto-França), Metlicovitz e Rossotti. Em continuidade, embora já sem o carácter inovador de outros tempos, o actual design visual dos vinhos Ramos Pinto é cuidado. Alguns exemplos merecem mesmo nota de realce como o renovado Duas Quintas Reserva. O seu rótulo apresenta uma imagem fotográfica, a preto e branco, da bela Quinta de Ervamoira (que juntamente com a Quinta dos Bons Ares dá origem a este nome/vinho). Recurso pouco habitual em rótulos de vinho — sem nada que o justifique —, a fotografia regista e é o documento por excelência. Quando a preto e branco, ainda mais se reforça esse carácter documental, de pormenor denotativo, sem perder as suas qualidades expressivas. Imagem de grande qualidade e beleza que, combinada com a tipografia clássica, a preto e ouro, de apurado rigor formal e técnico (tanto no rótulo como no contra-rótulo), dão sequência ao profissionalismo imposto por Adriano Ramos-Pinto nas primeiras décadas do século XX.

Enquanto muitas das imagens artísticas (ou pseudo-artísticas) nos rótulos contemporâneos de vinhos nos desviam ou lhes retiram significado, a imagem da Quinta da Ervamoira no Duas Quintas Reserva tem a virtude de ser clara e de nos remeter para uma convergência de sentido. É por ela que o valor do lugar se venera porque, como afirmava Susan Sontag, "fotografar é atribuir importância".



terça-feira, 9 de março de 2010

O belo, o bom e o útil — Esporão Monocastas

Giambattista Bodoni, tipógrafo italiano do séc. XVIII, no seu Manuale Tipografico (Parma, 1818) referia o belo, o bom e o útil como atributos para a excelência na comunicação tipográfica. Adaptados aos dias de hoje, e no que concerne ao design, esses conceitos mantêm-se actuais. Os dispositivos gráficos (livros, cartazes, sites, rótulos, etc.) existem essencialmente para levar informação a quem dela necessita ou recorra — serem úteis. Quando expõem a informação com rigor formal e conceptual, sem ruídos, significa serem bons. Ao apresentarem a informação de modo a que toque a nossa sensibilidade e crie apetência, significa serem belos... No entanto sabemos que organizar muitos conteúdos informativos de forma clara, harmoniosa, e obter com o resultado valor expressivo, não é tarefa fácil. É quase sempre um desafio que põe à prova as competências dos designers.

A Herdade do Esporão tem vindo a renovar a imagem gráfica dos seus vinhos com critérios de excelência. Temos acompanhado de perto essa mudança e razões houve já para dela se falar aqui... Analisamos agora o conjunto dos novos Esporão Monocastas (Aragonês, Alicante Buschet e Touriga Nacional), vinhos alentejanos de qualidade reconhecida e preço considerável. Trata-se de uma mudança radical, mais do que necessária, num produto que o exigia. A nova imagem dos Monocastas assenta em três vectores fundamentais: informação textual exaustiva, informação iconográfica contida e ausência de elementos decorativos. A opção espartana da iconografia (parra das castas e mapa de localização de Portugal) parece esconder o cuidado apurado do design global. Mas uma atenção redobrada revela-nos o sentido expressivo dos pormenores. A utilização de relevo e verniz reforça esse sentido. A cor segue o mesmo critério de sobriedade. Cada vinho/casta é caracterizado por tons escuros, sofisticados e elegantes — cinza, azul plúmbeo e castanho — no logótipo, nos títulos do texto e sobretudo na gargantilha (atendendo à difícil execução técnica do nome na vertical, dispensava-se aqui a sua inclusão). É o texto (tipografia) que, contudo, domina a imagem da garrafa. Começando pelas iniciais, que se impõem pelo seu corpo, espessura e elegância geométrica de desenho. Estendendo-se depois por colunas harmoniosas e funcionais, bem compostas no mesmo tipo moderno, e impressas num papel cru, texturado, de formato considerável. Falam, de forma técnica e rigorosa — e sem os exageros apologéticos tão típicos em casos semelhantes — da vindima, da casta, do terroir... Como se de um jornal aberto se tratasse. Não cansam nem têm que ser lidas em sequência. O resultado é o da beleza da simplicidade funcional. Design que afirma e prestigia a relação entre a exigência do conteúdo e do contentor.

Ao evocarmos Bodoni, o Belo, o Bom e o Útil, relevamos a importância das funções num projecto de design. Ao mesmo tempo que reconhecemos que a beleza não tem que estar na decoração mas na própria funcionalidade. Sempre que utilidade, qualidade e beleza se fundem, emerge o melhor significado do design.



domingo, 28 de fevereiro de 2010

Grão Vasco Dão, duriense e alentejano

Al Ries, especialista americano de marketing e publicidade — conhecido como "guru das marcas" e autor do livro "A Origem das Marcas"—, dizia em entrevista à TSF que uma marca, para vingar, terá que remeter o mais possível para o mesmo conceito ou função. É pela convergência, como refere, que o consumidor reconhecerá a dimensão máxima de uma marca até ao extremo de chegar a confundir o conceito/produto genérico com o próprio nome/marca. Os exemplos Coca-Cola, Gilette, Kispo ou Bic são sintomáticos para percebermos a sua ideia.

Quando associamos o nome Grão Vasco ao vinho, o Dão impõe-se. Por razões óbvias mas, como também referiu Al Ries, porque o Grão Vasco Dão foi o primeiro a conquistar a mente dos consumidores. E já lá vão algumas décadas. Claro que o próprio pintor renascentista português (e não medieval como se diz no site, exuberantemente animado, de apoio ao vinho Grão Vasco) terá vivido e trabalhado por aquelas bandas. O museu com o seu nome e com a sua obra mais significativa — e que se aconselha visitar, depois da intervenção do arquitecto Souto Moura — também está situado em Viseu. Tudo isto são ligações que não podemos evitar. Desconhecemos se a estratégia comercial da Sogrape, ao associar o nome Grão Vasco a vinhos de outras regiões, tem êxito. Desconhecemos também os pressupostos que a determinaram. Nem compete a este espaço essa análise, mas a pergunta é legítima em termos de comunicação. Habituados que estávamos ao Grão Vasco como Dão, teremos agora, e contrariando a teoria de Al Ries, capacidade de mudar facilmente a nossa mente e aderir a um Grão Vasco duriense ou alentejano? 

Claro que o propósito que determinou este artigo não foi o marketing mas o design visual da trilogia dos tintos Grão Vasco (a exemplo do que fizemos com os Borges Quintas). A nova imagem do conjunto é graficamente cuidada e, sem ser brilhante, reconhecemos nela o devido profissionalismo, como vem sendo habitual na Sogrape. Constatamos contudo que, para vinhos com características tão distintas, a solução de design gráfico é muito questionável. Serão poucos os que não hesitarão ao tirar da prateleira o Grão Vasco pretendido. A tipologia de garrafa, seguindo o compromisso borgonhês do Dão, também ajuda ao equívoco, a par da mesma organização formal dos rótulos e da sua tipografia. Enquanto elementos distintivos, reconhecemos apenas: a cor na gargantilha e correspondente banda cromática no rótulo (onde se insere o nome da região); o pormenor iconográfico da pintura de Vasco Fernandes (imagens muito próximas) e o texto descritivo das castas em corpo pequeno. Demasiadas subtilezas para o consumidor menos atento diferenciar. Ou será que a confusão é propositada? 


Unir o que é de unir e separar o que deve ser separado é uma regra básica em comunicação visual. Apanhar a boleia do êxito nem sempre significa uma boa opção. Principalmente quando na mesma carruagem viajam personalidades vincadamente distintas. Quase sempre tendem a confundir-se e, por consequência, a esbater-se.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crítica cega ao design Borges Quintas

Um rótulo de um vinho não tem que contar uma história nem tem que recorrer sempre a elementos narrativos e simbólicos. A sua função principal é identificar e distinguir, e só depois caracterizar. Para cumprir estes propósitos, a cor, enquanto elemento comunicativo, pode ser uma opção inteligente.

A qualidade da nova imagem dos vinhos Borges Quintas (Verde, Douro e Dão) merece ser reconhecida. Principalmente porque, perante o programa difícil, a solução de design é eficaz. ("Programa" é, quanto a nós, o melhor termo português para substituir o badalado "briefing"). A proposta de unificar e diversificar em simultâneo não é fácil, isto é, através de argumentos de design gráfico, uma mesma marca/nome comunicar produtos tão distintos como vinhos Verde (branco), Douro e Dão (tintos). Assim, o elemento central da estratégia de design foi a cor. Ainda que a tipologia de garrafas ajude nessa caracterização (o Dão impõe a garrafa borgonhesa), as cores expressivas dos rótulos trouxeram uma forte distinção — identidade — e alguma caracterização e simbolismo. A solução do verde (mais frio), do amarelo (mais quente e intenso) e do rosa (quente mas mais macio) tem carácter e modernidade assumida. Tonalidades bem escolhidas, nada banais, que ligam com o preto do quadrado (marca) e da base do rótulo, elementos comuns à série. O contraste do verniz da marca/texto com a superfície mate (do papel) aveludada da cor, amplia o valor estético. A opção tipográfica é elegante e irrepreensível na composição. O uso de um só tipo de letra – moderno, não serifado – para os três vinhos acentua o carácter contemporâneo e faz a fusão entre eles. Nos contra-rótulos, o rigor informativo e o arranjo gráfico revelam o profissionalismo do design global.

A imagem gráfica Borges Quintas assume-se assim, claramente, como a melhor de toda a produção Borges (algo desigual em critérios de design) e uma das mais elegantes e modernas dos últimos tempos de vinhos portugueses.






















O título deste artigo surgiu a propósito de, num almoço recente com duas amigas (designers e ex-alunas na FBAUP), a autoria da imagem dos vinhos em causa nos ter sido revelada. O post estava quase pronto, por isso a conversa contornou habilmente o assunto.
O objectivo deste blogue não é promover ou despromover pessoas; antes reconhecer as qualidades do trabalho de design dos vinhos ou apontar a falta delas. Sabemos que o design se justifica pelo processo, mas é pelo resultado que a sua qualidade deve ser avaliada. Quantas vezes o reconhecimento dessa qualidade não vem apenas associado à notoriedade do seu autor? Ao apelidarmos de "crítica cega", estabelecendo a analogia com as provas cegas de vinhos, pretendemos aclamar a crítica ao design independente do seu autor.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sites e desconfianças

Um site é hoje, para um produtor/empresa de vinhos, um dispositivo de comunicação tão ou mais importante do que os rótulos das garrafas. Representa um espaço informativo, de credibilidade e de divulgação por excelência – mas também de negócio. Quase todos os produtores que se apresentam com um design de rótulos deficiente (para não dizermos mau) têm sites a condizer. Estarão convencidos do contrário, mas isso ainda piora a avaliação do nível cultural do sector. A maioria dos produtores é mal aconselhada no que toca ao design de comunicação. Muitos nem aceitarão que isso se faça. Decidem "estrategicamente" pelo seus critérios pessoais ou pelo que espiam no vizinho mais acima. A falta de confiança em quem sabe — e a desconfiança — é um dos grandes males portugueses. Atribuir o poder de uma decisão a outrem e reconhê-la como boa é algo que os nossos empresários parece abominarem. O receio das ideias dos outros (reconhecidamente competentes, é claro) instalou-se, generalizou-se e demora a combater. Para mal da imagem do país, nomeadamente no sector dos vinhos, onde a internacionalização é um facto. E porque "olhar para o lado" é tão apetecido entre nós — no que toca ao design — dá vontade de sugerir aos produtores portugueses que ponham os olhos nos argentinos.

Um site de uma empresa de vinhos não deve ser implementado tendo em consideração apenas o gosto de quem a dirige. Mesmo que a empresa seja familiar e que tenha esse lema como condição. O site é um dispositivo de consulta, público, que deve obedecer a critérios determinados pela sua função e pelo seu uso. É, pois, pela funcionalidade do acesso, pela clareza da arquitectura da informação e pelas respostas que se obtêm, em tempo certo, que o classificamos de bom. Ainda que a poética e expressão artística sejam importantes. A par, claro está, de um carácter simbólico que não desvirtua a mensagem do produto que comunica: vinhos de uma região determinada.

Posto assim, num parágrafo, poderá parecer fácil opinar sobre design de comunicação; mas sabemos que leva anos a aprender a sua linguagem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Os nomes dos vinhos

Reconhecemos que não deve ser fácil hoje em dia arranjar e aprovar um nome (dito) apelativo para um vinho, saindo da nomenclatura das quintas e dos lugares de cultivo da vinha. O impedimento de usar nomes de castas esgota referentes. Estabelecer uma ligação entre o nome e as características do vinho ou do lugar em questão parece ser uma atitude lógica. Contudo, sabemos que excessos de referências óbvias traduzem-se quase sempre em literalidade aborrecida. Mas não há necessidade de baptizar vinhos com carácter, vinhos sérios, com infantilidades, defeitos humanos, ou até mesmo com nomes "nonsense". Na ânsia de novidade e no deslumbre pela diferença, tem surgido ultimamente muita falta de bom senso e muitos disparates à mistura.

Gambozinos (coisa indefinida, inexistente, com que nos enganavam na infância), Egoísta (característica humana, desajustada dos valores civilizacionais actuais de solidariedade), Irreverente (atributo de quem não tem reverência, respeito pelo outro, mal-educado), Yes We Can (cópia do slogan da campanha política americana) são, entre tantos outros, nomes de vinhos portugueses que enunciam o que se disse.

Não há uma fórmula para criar um nome apelativo, simbólico e mnemónico como alguns fazem crer. Temos exemplos de nomes de vinhos prestigiados com características diversas (curtos, longos, sincopados, fechados, abertos, literais, abstractos, decifráveis, mudos, portugueses, estrangeiros...). O nome, tal como o design visual, não faz um vinho. Nem devemos esperar dele mais do que a capacidade de nomear e fixar o produto se este nos deixou referências. Pelo sim pelo não, o nome da quinta ou do lugar — quando exista bem definido — é sério e, se aprovado, não desmerecerá. Por ser tradicional em nada implica com o valor comunicativo. É que Maria e António são hoje nomes de crianças na moda, transversais a toda a nossa sociedade; depois de Constança e Martim, numa faixa, e de Vanessa e Rúben, na outra, terem feito furor.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Mudar de imagem

As mudanças no design de imagem de um qualquer produto ou serviço a que nos habituámos, a acontecerem, deveriam ser significativa e justificadamente para melhor. Razões há, de sobra, para que as mudanças aconteçam mas quantas vezes isso não se verifica?! O novo logótipo do Multibanco (pouco expressivo em visibilidade e distinção), o de Serralves (com o L obtuso, amadoramente combinado com a letra A) ou o da Água do Luso (colando-se à moda, mas deixando cair o carácter temporal do anterior tipo serifado), parecem ser exemplos claros do que pretendemos afirmar. Estas acções tanto em voga, apelidadas de "redesign", "refreshing" ou "rebranding", são quase sempre acompanhadas por extensos relatórios e narrativas fantasiosas, mas a maioria das vezes não passam de ligeiras alterações de imagem visual – vestimenta – acompanhadas do discurso "da banha da cobra". No fim, ficam os consumidores com a sensação de que lhes trocaram as voltas e o autor da ideia satisfeito, porque mostrou serviço. Ganha, sem dúvida, a empresa que executou o trabalho.

O Quinta dos Aciprestes, Douro Tinto da Real Companhia Velha, é um vinho cuja relação qualidade/preço é reconhecida. A alteração do seu rótulo enquadra-se no que atrás se disse. O papel brilhante, avivado pelo fundo preto, continua a remetê-lo para um vinho de qualidade inferior. Se o rótulo antigo apresentava uma composição gestual onde se adivinhavam aciprestes, a nova versão apresenta uma imagem de socalcos sem qualquer carácter expressivo, ambas num cromatismo agressivo e desajustado. A ilustração ficou ainda mais pobre e insipiente na sua retórica (enquanto desenho, representação simbólica e originalidade). A tipografia mudou para uma comunicação mais clássica (tipos serifados e alinhamento simétrico), mas continua a faltar-lhe erudição. A casa produtora, o vinho, a quinta, o próprio nome "Quinta dos Aciprestes" mereciam muito mais.

Valeu a pena a mudança? Não. Quando assim é, e para o consumidor, é quase sempre melhor o que estava.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Loucuras bairradinas

Os vinhos da região da Bairrada estão diferentes para melhor. Diz quem sabe que a região tem características de terroir dignas de serem ainda mais valorizadas e promovidas. Os solos argilosos aliados à típica casta Baga trazem carácter único aos seus vinhos. Acontece que em termos de imagem, ainda que encontremos um ou outro exemplo digno de registo, os vinhos da Bairrada seguem o mesmo panorama de qualidade fraca tão típico do resto do país. Se o produtor Luís Pato tem contribuído, em todos os sentidos, para a valorização global dos vinhos das Beiras, o que nos faz agora falar da região são os maus exemplos que por lá proliferam, prejudicando-a, ao ponto de os apelidarmos de autênticas "loucuras".

Atentemos no excêntrico Quinta da Mata Fidalga Tinto 2007 de Augusto Virgílio de Sousa & Filhos, Lda. A garrafa começa por ser desajustada: o seu desenho é o de um frasco de perfume, de um champô, ou de um azeite quando muito. (No Quinta da Mata Fidalga Branco, o conceito de embalagem de perfume ainda se acentua mais, lembra uma água de colónia espanhola). Quer isto dizer que a semântica da forma não nos remete para "vinho tinto da Bairrada". Por sua vez, o rótulo Tinto evidencia uma textura a preto e roxo/magenta de gosto muito duvidoso. A sua colocação inclinada, com o texto composto na vertical, requer seguramente grande trabalho na colagem que não parece compensado em efeito visual. Pretende ser sofisticado — embora não se justifique num vinho de custo médio de oito euros — mas o resultado global é de mau gosto, diríamos mesmo, piroso! Decerto agradará a algumas pessoas, mas quem valoriza o design ou tem preocupações estéticas, jamais o servirá num jantar... Quando muito terá que ir decantado para a mesa. Ora, quando isto se constata, é porque estamos na presença de uma má solução de design.

O design de uma embalagem nunca substitui a qualidade de um produto (ou a falta dela); mas quando o design exclui em vez de convocar e estabelecer empatia, então estamos na presença não só de uma má solução de design como de um erro grave de comunicação e, claro, de má estratégia comercial.




segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Concursos

Todos os concursos onde o gosto popular é lei são pobres culturalmente e, por conseguinte, servirão para muito pouco. A inutilidade deste tipo de eleições tem ainda a agravante de se tornarem pedagogicamente perigosas. Mostram ao público maus exemplos, enquadrados em ambientes enganosos de qualidade.

A última edição da revista Divinum, (revista quadrimestral sobre vinhos, da responsabilidade da Hdem Lda e que tem distribuição gratuita com o jornal Público) dá conta de um concurso de rótulos de vinhos, pomposamente apelidado de Wine Design. Antes de mais temos de apontar a incorrecção do título, já que não se trata de um concurso de Design: não se apura a qualidade do design do vinho (uma boa tradução de "wine design" seria "desenho, construção do vinho") nem se apura a qualidade do design da sua embalagem. O concurso propõe apenas uma votação popular, via internet, www.revistadivinum.com, num conjunto de rótulos submetidos à referida eleição. Assim, a única designação credível que o concurso deveria ostentar seria "O rótulo/imagem do vinho mais popular". Não se pode aferir a qualidade do design se, no mínimo, não se constituir um painel de jurados integrado maioritariamente por especialistas em design. Se equacionarmos que mais de 80% dos rótulos são tipografia; que dispomos hoje de milhares de tipos de letra; e que a grande maioria do público pouco mais decifra nas letras do que as palavras que estas representam... Que tipo de julgamento farão? Imagine-se, por analogia, um concurso de premiação de vinhos onde fosse o público a dar o veredicto final em vez de um painel de provadores. 
Não está em causa a importância do gosto e a aceitação popular do design, mas essa aferição tem muito pouco a ver com critérios de excelência. Não é por acaso que os dois rótulos mais votados da terceira fase (Xara 2007 Reserva e Cabeça de Toiro Reserva 2005) são banalidades gráficas com opções tipográficas, nos títulos, muito duvidosas.

A responsabilidade sobre a determinação da qualidade em cada ofício deve ser atribuída a quem sabe. Não porque se trate de preservar o controlo corporativo, mas porque os saberes (neste caso os da comunicação visual e da estética) são cada vez mais complexos e com maior especialização. Senão para que serve o investimento do Estado em escolas superiores de design? 


domingo, 10 de janeiro de 2010

Modernidade

A condição "moderna" torna-se difícil de abordar sob uma perspectiva crítica mais profunda mas é facilmente compreendida se falarmos da imagem do vinho em Portugal. A contradição aparente entre inovação, carácter e tradição cultural, algumas vezes aqui evocados a propósito da má imagem gráfica dos vinhos portugueses, encontra sentido nas palavras de Yvette Centeno: "não há inovação sem tradição, como não há cultura sem memória". Ser moderno não é estar de acordo com a moda nem importar modelos. É antes sermos capazes de actualizar sem recorrer a esses modelos. Actualizar é trabalharmos com o pensamento e os argumentos, as técnicas e os dispositivos do nosso tempo e da nossa cultura. Mas para actualizarmos a nossa cultura será necessário descobri-la e conhecê-la. Ser moderno é, sobretudo, sabermos absorver essa informação de forma crítica e criativa e operarmos mudança — a mudança é, pois, o pressuposto de toda a condição moderna.

Vem isto a propósito de um presente natalício que recebemos de um amigo: uma garrafa de Miura 2007, Douro Tinto, da Quinta de Tourais. A imagem genérica dos vinhos Quinta de Tourais propõe uma comunicação moderna e expressiva. (Mais tarde abordaremos o Tourónio Tinto, já premiado visualmente.) Vinhos de qualidade, de pequena produção, da região da Régua — e aqui no Miura em parceria com um grupo de amigos associados — que apostam com o mesmo entusiasmo na sua imagem visual. (Estamos em crer que a mudança pode estar nos pequenos produtores. Sem as pesadas estratégias de marketing por trás, muitas vezes longe de provarem a sua validade, os pequenos produtores podem constituir-se como exemplo de futuro; mais facilmente investindo em bom design, ousando e desafiando.)


O exemplo do Miura Tinto 2007 mostra como o caminho pela contemporaneidade da imagem dos vinhos em Portugal pode evoluir sem perda de carácter. Alia a técnica antiga da serigrafia (impressão a branco sobre o vidro) com a expressão gráfica de síntese (icónica e tipográfica) e o discurso simbólico (remetendo não para a representação mas para a interpretação, que está para lá das formas). Tecnicamente irrepreensível na sua execução (não nos apercebemos de qualquer união na imagem envolvente), o resultado é um belo e intrigante entrelaçado, libertando toda a informação textual para a parte de trás da garrafa. (Apenas o reparo para a vastidão de espaço ocupado pela composição do texto. O conceito de síntese pedia maior contenção).


O Miura 2007, enquanto imagem global, é enigmático e apelativo, é elegante e complexo, absorve a tradição e reconstrói-a, informa correctamente e amplia sentidos...  Em suma, traz novos valores à nossa cultura.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um belo exemplo iconográfico

Na sequência da ideia aqui exposta sobre a credibilidade em design, trazemos o exemplo dos vinhos do Douro Churchill's Estates, cuja imagem, renovada recentemente por uma agência inglesa, constitui, em nosso entender, uma boa solução.

Os rótulos dos vinhos Churchill's Estates apresentavam já um grafismo cuidado (rótulos elegantes e criteriosos, com soluções tipográficas simples mas sérias). Contudo, a sua alteração recente, veio trazer-lhes maior expressão e carácter. Carácter esse que provém do recurso a uma iconografia semântica e plasticamente rica, embora partindo de um modelo tradicional. Os rótulos caracterizam-se por conterem, em dimensão ousada (nomeadamente o Quinta da Gricha), belas imagens a preto — texturas gráficas de penteados de vinhas — que nos revelam uma outra imagem do Douro. Esta visão aérea das quintas, longe do ponto de vista cliché dos socalcos ladeando o rio, alia informação à expressão (da ideia, da textura e da cor). A nova representação não trai o referente nem o seu carácter, antes os reafirma, e ensina-nos que a iconografia do Douro não se esgota nem precisa de perder o seu sentido, na ânsia de se "modernizar".


Para aqueles produtores que não reconhecem a necessidade de mudança na imagem dos seus vinhos (porque ainda não reconhecem o problema); para aqueles que insistem em nada mudar (e que usam argumentos pouco credíveis); ou ainda para aqueles que mudam mas que deixam tudo na mesma, ou pior, (porque seguem estratégias e opiniões de design pouco avalizadas): a nova imagem Churchill's Estates é um exemplo eloquente! E não será necessário deslocarem-se até às Ilhas Britânicas (de onde escrevemos este post) para lhe seguirem a eloquência.





sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Credibilidade

Não nos agrada a ideia de que o carácter dos vinhos portugueses possa ser "mandado à fava" em favor de estratégias de marketing (que se consideram sempre as mais modernas e de maiores probabilidades de retorno imediato).

Somos muito críticos relativamente à actual má imagem dos vinhos portugueses mas também não somos favoráveis ao entusiasmo de alguns, que alinham pelos "belos exemplos australianos ou californianos". Dizemos belos porque o são de facto, graficamente... A sua criatividade, artística e comunicacional — mesmo na vertente mais informativa —, surpreende-nos a todo o momento. Contudo, quantas vezes não nos interrogamos se não estamos antes na presença de embalagens (o termo "packaging" torna-se parolo, pretensioso, na língua portuguesa) de perfumes ou de óleos de massagens, de brindes publicitários ou, quando muito, de tisanas adocicadas ou licores de tudo?! Para esses estrategas pouco importará desenhar, promover, vender, consumir o vinho como se fosse refrigerante; como se o grafismo, a imagem, o conceito, a cultura em si pudessem ser subvertidos e submetidos a esses travestismos.

A credibilidade, tão em falta na sociedade contemporânea e no design em particular, vê-se assim ainda mais ameaçada. Ser credível em design (como no vinho, nos negócios, na vida) é um imperativo ético, que se repercute valorizando as relações humanas e a nossa sociedade em geral.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Quando a melhor solução é "não fazer nada". O exemplo Chryseia

"(Não) usar o espaço em branco é uma decisão importante em design e aprender a fazê-lo pode levar anos. (...) O trabalho do designer pode também ser a decisão de não fazer nada". Esta ideia do designer eslovaco Peter Bilak tem já mais de uma década mas mantém-se actual e trazê-la para este post ganha pertinência. Ora o "não fazer nada" é fazer muito...

Vem isto a propósito da exuberância gráfica, geralmente de má qualidade, que ostentam muitos dos rótulos actuais de bons vinhos portugueses. Se a iconografia (ilustração ou fotografia), quando entra, parece condenada a um nível muito pouco interessante, já a tipografia espelha o que tem sido a nossa herança cultural mais deficitária em termos de design gráfico. No passado (o das litografias e dos artistas gráficos que seguiam a tradição), o panorama nunca foi brilhante. A situação hoje em dia, contudo, parece ter piorado. Em grande parte resultado do acesso fácil, por amadores, às tecnologias gráficas digitais mas, também, das fornadas de jovens designers mal preparados que todos os anos entram em actividade (temos hoje em Portugal demasiadas universidades e politécnicos com oferta em design).

Em contraponto, e na sequência da ideia apresentada por Bilak, trazemos a imagem de um vinho do Douro conhecido pela sua qualidade: o Chryseia da parceria Prats & Symington. A predominância do espaço em branco e a ausência de artifícios ou tiques gráficos, revelam a presença de um carácter forte que vale por si só. A escolha dos tipos de letra (a elegância humanística do moderno Gill Sans combinado com o serifado para o ano de colheita), a composição e o espaço branco envolvente, o preto e cinza do cromatismo, a qualidade do papel e o relevo da bordadura mereceram atenção e, como se depreende, projecto.

Na verdade, fugindo do panorama de excessos e amadorismos, o rótulo do vinho Chryseia tem personalidade e é eficaz. Não nos irrita, não nos distrai, não nos remete para banalidades nem nos transporta para simbolismos artificiosos: abre-nos a porta para o essencial – a sua essência. Brindemos a ela! 





quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Design caseiro nos vinhos portugueses

O conhecido "Relatório Porter" é um estudo importante, estratégico, para o sector vitivinícola português. Sem pretendermos fazer qualquer juízo global sobre a sua natureza e actualidade, trazemos aqui um pequeno excerto do "Porter 1 - Activar a Estratégia do Cluster do Vinho" (2003), onde se faz o diagnóstico acertado sobre a imagem dos vinhos portugueses e se aponta uma saída. Nele encontramos, também, a justificação para a existência deste blogue.

"Apesar da qualidade do produto que se encontra dentro da garrafa, demasiados vinhos portugueses não serão escolhidos pelo consumidor se tiverem de competir pela sua atenção com as garrafas fáceis de identificar e de design apelativo de vinho proveniente de países do Novo e do Velho Mundo. Em Portugal, muito do trabalho de design é efectuado informalmente por familiares ou amigos, e apesar de haver alguns bons exemplos, a maioria dos resultados em termos de design tem o valor do seu custo. As empresas do cluster deverão tentar recorrer a serviços profissionais para criar vinhos que são atractivos para os consumidores."
Relatório Porter

Fica um pequeno comentário a uma passagem do texto relativa ao próprio conceito de design (e que é como o público em geral o vê). Quando se diz "as garrafas fáceis de identificar e de design apelativo", distinguem-se duas funções que, na realidade, não devem existir em separado. O conceito global de design incorpora essas funções. Isto é, o design de uma garrafa deve contemplar a informação e a persuasão. Erradamente, atribui-se ao design apenas valor estético quando é pela globalidade de funções que ele se afirma e se distingue da arte e da decoração.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sexy... Ma non troppo

A cor dos vinhos rosé tem uma forte carga apelativa. Muitos acrescentarão que também erótica. E tanto assim é que essa carga sensual tem sido explorada, quer através da própria imagem da garrafa, quer pela publicidade associada. Em Portugal, depois de alguma euforia, a moda dos rosés parece ter amainado...
Devemos começar por dizer que não será nova nem descabida a associação dos "prazeres da carne" aos prazeres do vinho. Mal ao mundo também não traz, já que sexo e vinho são "obras" da maturidade. A própria história mais remota do vinho contém exemplos eloquentes sobre esta ligação. Na mitologia das antigas civilizações da Mesopotâmia, por exemplo, conta-se que Inana, deusa do amor e fertilidade, utilizou o vinho como estratégia para seduzir os deuses do sexo oposto.

Os rótulos dos vinhos SEXY (Rosé, Tinto e Branco), da empresa Fita Preta, são bem desenhados: clara e eficaz hierarquia da informação (composta numa bela tipografia que combina moderno e clássico); bom equilíbrio de composição (espaço generoso envolvendo o nome); esteticamente elegantes. A escolha de cores segue o mesmo critério estilístico entre a tradição e a modernidade (questiona-se apenas a opção um tanto adstringente pelo rosa amagentado no Tinto). Resumindo: grafismo irrepreensível, jovem e macio, que parece ir de encontro à própria natureza do vinho alentejano proposto.
Acontece que a imagem projectada pelos rótulos SEXY, de sexy só tem o nome. É tudo menos erótica, ao contrário do que o próprio título literalmente quer sugerir. Nenhuma mulher ou homem será sexy por dizer que o é. E menos ainda por ostentar esse título. O erotismo constrói-se na interacção, não surge da imposição. Vivencia-se pelas sugestões, não pelas evidências. Ficamos com a sensação de que a adopção do nome não passou de uma estratégia de marketing.

A proposta deste conceito deveria ter sido visualmente mais consequente. Estamos em crer que faltou a opção iconográfica, que revelasse o erotismo de forma inteligente. Imagens que certamente dispensariam depois a evocação escancarada, pseudo-irreverente do nome, e que, com naturalidade, ancorariam o vinho nessa semântica de sensualidade. Dirão alguns que facilmente se poderia correr o risco de cair em "pornografias visuais"... Por isso o adjectivo "inteligente" faz toda a diferença. É que a qualidade da retórica visual para aqui requerida, tal como o erotismo, é um saber criativo que não estará ao alcance de todos.

Bela parceria, bela recompensa

Estivemos recentemente no Instituto Politécnico de Leiria a participar num Encontro sobre "Imagem Aberta", falando para uma plateia de estudantes de comunicação. De media, de tecnologia e do futuro se falou, mas também da broa de milho de Lamego e da imagem do vinho... Foi simpático, foi positivo e muito gratificante. O agradecimento dos responsáveis da instituição foi, no final, uma surpresa agradável, originando inclusivé este post. Em vez do típico azulejo pintado à mão com o logótipo da instituição, ou da peça de cerâmica que fica entre o útil e o inútil, entre o design kitsch e o artesanato regional, recebemos uma embalagem com três garrafas de Rocim Tinto 2005, Vinho Regional Alentejano, da Herdade do Rocim / Terralis.

A qualidade da imagem gráfica deste vinho mereceria, por si só, um artigo. O Rocim Tinto revela uma opção tipográfica clássica determinada, que recai na escolha dum tipo latino (Trajan, já aqui antes abordado). Todo o texto é composto irrepreensivelmente: no rótulo e no contra-rótulo; no título do vinho; na hierarquia e no seu alinhamento geral. Apresenta cores contidas mas com carácter (preto e prata) sobre um papel de qualidade, de bela textura, onde sobressai, sem ser ostensivo, o corte serrilhado, acrescento discreto de contemporaneidade.

A toda esta harmonia visual, mas seguramente ao seu néctar, em boa hora o IPL se resolveu juntar. E fê-lo com uma dignidade e elegância pouco habituais neste tipo de brindes e comunicação. Ambos respeitando o território de cada um. A solução é digna de registo: um prolongamento/duplicação do rótulo, contendo discretamente a identidade do IPL, sem ruído nem atropelo à marca Rocim, nem esta menorizando a entidade que ajuda a promover. (Um pequeno reparo a corrigir: o branco do papel dos dois elementos não é rigorosamente o mesmo; numa retórica de sobriedade e contenção, os pequenos pormenores são mais visíveis.)

Estão de parabéns as duas casas e, sem importar de onde partiu a ideia, devemos acima de tudo louvar estas belas parcerias de promoção mútua.


A tradição do Douro e as modernices gráficas (II)

Para exemplificarmos o que foi dito na primeira parte deste artigo, escolhemos duas garrafas de estilos distintos do produtor Alves de Sousa. Premiado pela qualidade que tem apresentado nos vinhos que produz, deveria corresponder a semelhante exigência na imagem. (Um parêntesis para afirmarmos que nada nos move contra nenhum produtor, marca ou designer. Tentaremos sempre manter a distância jornalística no comentário, e sempre numa perspectiva construtiva. Uma coisa é certa: só falaremos da imagem de vinhos cuja garrafa bebamos até ao fim... E, mais fácil do que fazer um bom vinho, será alterar uma imagem gráfica.)















O Cume do Pereiro 2004, vinho tinto Douro de relação qualidade/preço apreciável, destaca-se por apresentar um rótulo excêntrico, uma "modernice" que parece contrariar o carácter do Douro. Ao apoiar a sua estratégia visual numa forma (um cortante especial), pretende sobressair pela novidade, esquecendo que a novidade por si só não constitui qualquer valor, ainda mais quando é semântica e plasticamente pobre. Trata-se de uma evocação estilizada — mas literal — do cume de um monte. É também uma forma desajustada em relação ao suporte (garrafa). A tipografia escolhida, geométrica e de estilo temporal marcante (Avant Garde, final dos anos 60), segue o mesmo critério anacrónico. Sob o ponto de vista informativo — e é este, quanto a nós, o ponto principal para a avaliação de um rótulo — teremos que voltar a garrafa para obtermos a informação mínima necessária. Parte do próprio nome do vinho (do Pereiro) é omitida. O contra-rótulo é um exemplo claro da falta de rigor na organização dos conteúdos e no desenho da informação mas, acima de tudo, de pouco respeito pelo leitor.

O segundo exemplo é o Quinta do Vale da Raposa Touriga Nacional 2005. Este vinho tinto do Douro, de preço mais elevado e com boas notas de classificação, mostra bem a diferença de qualidade que existe entre um conteúdo e um contentor. O seu rótulo aponta para uma maior sobriedade, seguindo uma opção tipográfica. Porém, o resultado global não afirma o carácter do vinho, antes evidencia fragilidades que denunciam o seu grafismo amador: a composição do título, à esquerda do rótulo, contraria a ordem sugerida pelo seu alinhamento central; apresenta uma hierarquia excessiva, com corpos (tamanhos de letra) desajustados; tem erros de composição (o entrelinhamento do texto é descuidado e na primeira linha do título, o espaço antes da palavra "do" é incompreensível); já para não falarmos do estranho elemento (tipo?)gráfico que domina o rótulo. O que é? E que justificação dar à repetição do nome no seu interior, agora fragmentado e em caixa baixa? (Qualquer imagem que nada acrescente à informação, transforma-se em ruído. E se não for entendida minimamente torna-se um equívoco.) Usar vernizes e relevos encarece um rótulo mas não lhe traz qualidade, se o que se enverniza ou releva não promover sentido. O contra-rótulo, uma vez mais, denuncia a falta de qualidade global, apresentando o texto principal negativado, alinhado à direita (erro comum de quem não tem em conta o leitor), já para não falarmos da sua dupla orientação (horizontal e vertical) e da diferença notória na qualidade do papel.

Outros exemplos mereciam críticas semelhantes como os Quinta da Estação, os Reserva Pessoal ou o Quinta da Gaivosa Vinha do Lordelo. Fica ainda uma nota incontornável: a imagem de identidade "Alves de Sousa" (logótipo) merece ser alterada quanto antes. Espelha precisamente as incongruências e o grafismo amador do que atrás se mencionou: desnecessária "mixórdia" tipográfica em caixa baixa, em algo que deveria representar seriedade e credibilidade institucional, principalmente para que tem demonstrado exigência e qualidade nos vinhos que apresenta.

Para terminar, e generalizando, não cremos que o mau resultado visual da imagem dos vinhos Douro seja apenas culpa de amadores com um computador à frente, ou de jovens designers (talvez os que não apreciam vinho), ou dos responsáveis pela promoção e pelo marketing que os encomendam... Dói que sejam os próprios produtores a aprovar, mas mais ainda, a rever-se nessas "pérolas". É que a qualidade de um qualquer produto ou artefacto emana de todas as suas "artes". Compete saber o lugar de cada uma.