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quarta-feira, 6 de abril de 2011

O rei vai nu — Nota breve IV

O pior que pode acontecer ao autor de uma "grande" ideia é constatar que outro a teve primeiro. E, pior ainda, é ter evidenciado vaidade com a sua grandeza.

No artigo sobre o vinho 8, da Adega Mayor, transcrevemos a ideia que presidiu à justificação do nome e da estratégia de comunicação: "No dia 08/08/2008 o mundo assistiu à abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Nesse mesmo dia, às 8 da manhã em Portugal, 8 pessoas começaram a encher a primeira de 8008 garrafas numeradas, celebrando o espírito da criação." Recebemos, dias depois, um comentário de um amigo, com o seguinte relato sobre a empresa 9"Em 1999, às 9 da noite, estavam sentadas a uma mesa, 9 pessoas que decidiram abrir uma nova agência de comunicação. Os 9 sócios definiram que a agência tinha que ser original. Importaram um conceito de sucesso nos EUA, mas que seria uma novidade em Portugal. Assim nasceu a 9 The Creative Shop."

Felizmente os números são infindáveis. Tal como a espiral das ideias. Contudo, não podemos deixar de nos interrogar se essas "grandes" ideias que se vendem por aí, como sendo as mais originais na comunicação do vinho, não servirão apenas para cobrir a nudeza do rei.

quinta-feira, 10 de março de 2011

De partir o coração – Nota breve III

Há rótulos de vinho que, pior do que serem maus tecnicamente, são incompreensíveis nos dias de hoje... A todos os níveis. O vinho Ping'amor Reserva, da Casa Agrícola Paciência, é um caso paradigmático. O seu rótulo, de formato exótico, para além de não comunicar quase nada, é formalmente deprimente. Apresenta o nome do vinho – de gosto no mínimo duvidoso – em texto mal composto, cores desajustadas que cortam o contraste necessário à boa leitura e umas aspas/pingos horizontais (?) sem que se perceba o seu sentido. O único dado que acrescenta para o consumidor é a palavra Reserva. O contra-rótulo lá vai incluindo a informação obrigatória, embora desordenada, sem critérios hierárquicos e de legibilidade. No meio desta anarquia tipográfica podemos ler o seguinte "poema": "Envolvente e sedutor, para momentos inesquecíveis". Depois de rodarmos a garrafa algumas vezes, descobrimos que afinal rótulo e contra-rótulo formam um coração partido em dois.

Que envolvimento e sedução nos pode trazer um vinho com uma imagem destas?! Uma coisa é certa: trata-se de um rótulo que parte realmente o coração...

terça-feira, 1 de março de 2011

A retórica do vazio

A importância que os valores simbólico e estético têm hoje numa garrafa de vinho, e à volta dela, merece reflexão. O que hoje se espera de um rótulo, ou de uma imagem global de um vinho, não é mais o dispositivo informativo (e de imposição normativa quantas vezes desajustada em critério gráfico e no tempo) mas antes uma narrativa a transbordar significados. Cumprida a primeira fase, os rótulos – tal como a comunicação publicitária em geral –, tornam-se cada vez mais narrativas carregadas de valores estético e simbólico, de apelo aos nossos sentidos. Estas mensagens constroem-se normalmente demasiado distantes do produto, do cliente ou da interacção entre ambos. Por isso denotam algum desprezo pelo receptor, pela sua leitura e interpretação.

O vinho 8 (oito), da Adega Mayor, é um bom exemplo do que atrás se disse. O vinho chama-se 8 mas estamos em crer que se poderia chamar 437, ou 5, ou até 0. Razões haveria para o justificar com facilidade e pretensa erudição. Tal como se justifica o vinho 7: "7 artes, 7 dias da semana, 7 pecados mortais, 7 graus da perfeição, 7 chakras da nossa energia" (sic). Sobre o 8, podemos ler: "No dia 08/08/2008 o mundo assistiu à abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. 
Nesse mesmo dia, às 8 da manhã em Portugal, 8 pessoas começaram a encher a primeira de 8008 garrafas numeradas, celebrando o espírito da criação." E o filme promocional do vinho termina com: "8 não é muito nem pouco, é eterno!" A construção até pode ser bonita, poética, metafísica (numerologia?) ou supersticiosa mas... e depois?

A embalagem e o rótulo do vinho 8 seguem as pisadas da sua retórica "conceptual" mas agora em exercício estilístico puro. A imagem é, sem dúvida, original, como pretendem os seus promotores. Tem um grafismo cuidado e foi inclusivamente premiada em concurso promovido por uma revista de marketing e publicidade. Reconhecemos que o recurso à literalidade, à "mera" função, à evocação de um qualquer produto se pode tornar pobre e aborrecida; mas a "banha da cobra" (qual memória descritiva de escola) que nos tentam impingir para vender o vinho, descredibiliza o próprio vinho e quem o faz, o design e a comunicação séria. É demasiado investimento no lado errado, no lado de fora do programa. Ainda que rico em elementos, torna-se um discurso difícil de agarrar. Escapa-se por entre os dedos porque é, acima de tudo, um discurso vazio.