Mostrar mensagens com a etiqueta iconografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta iconografia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Despida de carácter

A representação naturalista nas artes revela-se hoje como uma atitude muito pouco crítica e inventiva, nada consentânea com o nosso tempo; mas despida (pelada) de erudição, qualquer estilização plástica torna-se num mamarracho. Exemplos destes abundam hoje nas nossas rotundas, geralmente iniciativa de autarcas dinâmicos mas muito pouco cultos. (E sabemos bem as consequências da aliança entre o dinamismo e a ignorância). Custa a entender porque é que a beleza de uma árvore não pode, na maioria das vezes, "decorar a nudez" de uma rotunda em vez do irritante mamarracho escultórico. A Natureza apresenta, por si só, a beleza intrínseca de o ser (daí evocarmos amiúde o conceito de beleza natural). Em contrapartida, a estilização pode ser entendida como a incapacidade humana de igualar a Natureza, ou a tentativa de se sobrepor à sua ordem. No que toca ao design, Charles Eames referia mesmo, numa recomendável entrevista em 1972, que os estilos em design são mais o resultado de uma fragilidade humana do que um ideal.

O vinho Pelada Dão 2003, de Álvaro Castro, apresenta um rótulo atrevido, exótico... Mas mau. É atrevido porque conjuga a ambiguidade do nome da quinta com a nudez e porque a nudez é, ainda na nossa cultura, motivo de inquietação moral (Maria João de Almeida também o referiu numa crónica no seu portal). O rótulo é formalmente exótico porque pretende ser diferente ao repartir-se por três elementos, embora nada justifique essa complexidade. A expressão gráfica do título do vinho é débil, composto num tipo de letra digital que pretende imitar a caligrafia (nunca é a mesma coisa!) e na vertical, dificultando a leitura. A ilustração é artisticamente medíocre e desagradável: estilização de um corpo feminino executada por alguém que pensa que tem jeito. Braço e perna ligados, entrelaçados e unidos a uma bordadura através de um mau desenho manual/digital sem elegância, expressão e sentido anatómico. Tudo isto impresso num papel desajustado, canelado (em jeito de economato de prestígio), pouco recomendado para uma ilustração.

Por hoje se crer em demasia que todo o atrevimento, irreverência e exotismo se justificam, vemos surgir tão maus resultados de imagem de vinhos onde menos se esperaria. É o caso deste vinho de qualidade, oriundo de um produtor de grande prestígio e confiança. O rótulo Pelada Dão 2003, não estando à altura do seu vinho, em vez de o vestir com dignidade e, porque não, também, com sedução erótica, desnuda-o definitivamente. E um corpo assim, pelado, torna-se muito pouco atraente.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Imagem caseira

"Quando o envolvimento no que fazemos se sobrepõe ao propósito e às suas exigências, tende a tolher-nos e a tornar a nossa comunicação uma auto-expressão que poderá interessar muito aos nossos netos mas certamente pouco a quem servimos e menos à cultura em geral." Escrevemos em tempos estas palavras a propósito dos rótulos dos vinhos Cortes de Cima, criticando as ilustrações amadoras e o design insípido que exibem.

Os rótulos dos vinhos da Herdade da Malhadinha Nova, na mesma linha da empresa Cortes de Cima, vão mais longe ao exibirem desenhos das crianças da família. Desenhos semelhantes aos que todos nós, os que temos filhos pequenos, afixamos no escritório ou na porta do frigorífico lá de casa. Correspondem, como a generalidade dos desenhos infantis, a um discurso gráfico estereotipado. São uma forma das crianças comunicarem. Valem porque são feitos pela Alice, pelo João ou pela Francisca e não pelas suas qualidades artísticas. Aos pais enchem de orgulho mas para os outros serão um aborrecimento. Por isso devemos ter o bom senso de sermos contidos ao mostrá-los aos amigos. 
Os vinhos Malhadinha, Monte da Peceguina, Antão Vaz, Aragonês da Peceguina e Marias da Malhadinha são bem feitos. Afirmam-no outros mais entendidos do que nós. No que ao design de imagem diz respeito, são um equívoco. Entre o profissionalismo e o apego familiar paira uma espécie de fronteira mal definida. O que salta à vista nos rótulos é mesmo a combinação estranha das "imagens de infantário" com a tipografia utilizada (clássica — Trajan — nos títulos e moderna em caixa baixa — Univers — no resto da informação, no Monte da Peceguina, por exemplo). De pouco servirá o verniz Braille e o cuidado na impressão. Vinhos de preço considerável e de qualidade elogiada (sem dúvida o atributo mais importante!) mereciam um trabalho erudito a todos os níveis.

Depois da visita à bela Herdade da Malhadinha Nova, e na sequência de um excelente almoço degustação acompanhado pelos não menos excelentes vinhos da casa, não deixámos de nos interrogar, no regresso, como seriam a gastronomia e a enologia da herdade se fossem entregues aos palpites das crianças da família. Parece um exagero mas é uma analogia legítima que qualquer especialista em design de comunicação faria.

O design visual é hoje, cada vez mais, uma exigência que se impõe a toda a comunicação. Não deve ficar preso a estratégias emocionais, personalizadas, principalmente quando o cliente paga, a concorrência é muita e o léxico expressivo vasto, complexo, e exige saber na sua articulação.



segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um belo exemplo iconográfico

Na sequência da ideia aqui exposta sobre a credibilidade em design, trazemos o exemplo dos vinhos do Douro Churchill's Estates, cuja imagem, renovada recentemente por uma agência inglesa, constitui, em nosso entender, uma boa solução.

Os rótulos dos vinhos Churchill's Estates apresentavam já um grafismo cuidado (rótulos elegantes e criteriosos, com soluções tipográficas simples mas sérias). Contudo, a sua alteração recente, veio trazer-lhes maior expressão e carácter. Carácter esse que provém do recurso a uma iconografia semântica e plasticamente rica, embora partindo de um modelo tradicional. Os rótulos caracterizam-se por conterem, em dimensão ousada (nomeadamente o Quinta da Gricha), belas imagens a preto — texturas gráficas de penteados de vinhas — que nos revelam uma outra imagem do Douro. Esta visão aérea das quintas, longe do ponto de vista cliché dos socalcos ladeando o rio, alia informação à expressão (da ideia, da textura e da cor). A nova representação não trai o referente nem o seu carácter, antes os reafirma, e ensina-nos que a iconografia do Douro não se esgota nem precisa de perder o seu sentido, na ânsia de se "modernizar".


Para aqueles produtores que não reconhecem a necessidade de mudança na imagem dos seus vinhos (porque ainda não reconhecem o problema); para aqueles que insistem em nada mudar (e que usam argumentos pouco credíveis); ou ainda para aqueles que mudam mas que deixam tudo na mesma, ou pior, (porque seguem estratégias e opiniões de design pouco avalizadas): a nova imagem Churchill's Estates é um exemplo eloquente! E não será necessário deslocarem-se até às Ilhas Britânicas (de onde escrevemos este post) para lhe seguirem a eloquência.