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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Confiança no design

Recorremos em tempos aos argumentos (insuspeitos) do Relatório Porter para afirmarmos o ainda pouco profissionalismo da imagem dos vinhos em Portugal. Nunca será de mais voltar ao assunto na tentativa de se poder inverter a situação. Todos reconhecemos que a qualidade do vinho em Portugal evoluiu muito nas últimas décadas. Contudo, esse resultado não foi acompanhado pelo seu design de comunicação. E porquê? Fundamentalmente, porque a confiança dos produtores no saber dos profissionais do design não é a mesma que na viticultura ou na enologia. Ainda que a sua formação seja semelhante em tempo, exigência e rigor. Tal como apontava o referido relatório, os serviços de design em Portugal são muito negligenciados, entregues a pessoas menos qualificadas, feitos por familiares e amigos e, quantas vezes, pelos próprios proprietários. Seja o presidente de uma Adega Cooperativa, seja um jovem e dinâmico empresário/produtor, a atitude e a responsabilidade perante este problema tem sido, infelizmente, semelhante. (A título de exemplo, é frequente encontrarmos, numa das maiores empresas de impressão de rótulos, produtores sentados em frente a ecrãs de computador, ao lado de técnicos de informática, dando indicações, escolhendo cores, fazendo os seus rótulos na hora!)

Por outro lado, mesmo quando recorrem a bons profissionais de design, a grande maioria dos produtores (ou dos agentes responsáveis pela imagem do vinho), não confia nas soluções dos designers e exige ter sempre a "última palavra". E a última palavra — que se justifica enquanto aprovação — é, normalmente, um conjunto de alterações ao projecto finalizado, alterações essas que o desvirtuam: a substituição de uma cor por outra "mais apelativa", "mais discreta" ou a "que a esposa recomenda"; o aumento do corpo das letras, que não precisam de o ser, ou a mudança para um tipo mais fantasioso; a inclusão de mais um texto redundante ou de um slogan fora de moda; a substituição da imagem simbólica por outra mais literal... Quando não solicitam "copiar discretamente" a solução do rótulo do vinho concorrente, que vende mais.

Um produtor ao entender a estratégia do negócio e da comunicação dos vinhos como um prolongamento da sua pessoa, do seu gosto e do seu orgulho individualista – de quem tudo pode e decide –, está a esquecer o mais importante: a competência! Competência que é maioritariamente técnica. Mas também, e porque o mercado assim o exige, esquece a adequação ao gosto dos tempos, dos consumidores, do que estes estarão dispostos a pagar e aquilo que os possa surpreender.

Esta situação mostra, acima de tudo, como ainda não se entende realmente o que é o design. O design é um serviço. Como tal, objectiva o sucesso do produto que trabalha e, consequentemente, o sucesso de quem serve.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Imagem caseira

"Quando o envolvimento no que fazemos se sobrepõe ao propósito e às suas exigências, tende a tolher-nos e a tornar a nossa comunicação uma auto-expressão que poderá interessar muito aos nossos netos mas certamente pouco a quem servimos e menos à cultura em geral." Escrevemos em tempos estas palavras a propósito dos rótulos dos vinhos Cortes de Cima, criticando as ilustrações amadoras e o design insípido que exibem.

Os rótulos dos vinhos da Herdade da Malhadinha Nova, na mesma linha da empresa Cortes de Cima, vão mais longe ao exibirem desenhos das crianças da família. Desenhos semelhantes aos que todos nós, os que temos filhos pequenos, afixamos no escritório ou na porta do frigorífico lá de casa. Correspondem, como a generalidade dos desenhos infantis, a um discurso gráfico estereotipado. São uma forma das crianças comunicarem. Valem porque são feitos pela Alice, pelo João ou pela Francisca e não pelas suas qualidades artísticas. Aos pais enchem de orgulho mas para os outros serão um aborrecimento. Por isso devemos ter o bom senso de sermos contidos ao mostrá-los aos amigos. 
Os vinhos Malhadinha, Monte da Peceguina, Antão Vaz, Aragonês da Peceguina e Marias da Malhadinha são bem feitos. Afirmam-no outros mais entendidos do que nós. No que ao design de imagem diz respeito, são um equívoco. Entre o profissionalismo e o apego familiar paira uma espécie de fronteira mal definida. O que salta à vista nos rótulos é mesmo a combinação estranha das "imagens de infantário" com a tipografia utilizada (clássica — Trajan — nos títulos e moderna em caixa baixa — Univers — no resto da informação, no Monte da Peceguina, por exemplo). De pouco servirá o verniz Braille e o cuidado na impressão. Vinhos de preço considerável e de qualidade elogiada (sem dúvida o atributo mais importante!) mereciam um trabalho erudito a todos os níveis.

Depois da visita à bela Herdade da Malhadinha Nova, e na sequência de um excelente almoço degustação acompanhado pelos não menos excelentes vinhos da casa, não deixámos de nos interrogar, no regresso, como seriam a gastronomia e a enologia da herdade se fossem entregues aos palpites das crianças da família. Parece um exagero mas é uma analogia legítima que qualquer especialista em design de comunicação faria.

O design visual é hoje, cada vez mais, uma exigência que se impõe a toda a comunicação. Não deve ficar preso a estratégias emocionais, personalizadas, principalmente quando o cliente paga, a concorrência é muita e o léxico expressivo vasto, complexo, e exige saber na sua articulação.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Design caseiro nos vinhos portugueses

O conhecido "Relatório Porter" é um estudo importante, estratégico, para o sector vitivinícola português. Sem pretendermos fazer qualquer juízo global sobre a sua natureza e actualidade, trazemos aqui um pequeno excerto do "Porter 1 - Activar a Estratégia do Cluster do Vinho" (2003), onde se faz o diagnóstico acertado sobre a imagem dos vinhos portugueses e se aponta uma saída. Nele encontramos, também, a justificação para a existência deste blogue.

"Apesar da qualidade do produto que se encontra dentro da garrafa, demasiados vinhos portugueses não serão escolhidos pelo consumidor se tiverem de competir pela sua atenção com as garrafas fáceis de identificar e de design apelativo de vinho proveniente de países do Novo e do Velho Mundo. Em Portugal, muito do trabalho de design é efectuado informalmente por familiares ou amigos, e apesar de haver alguns bons exemplos, a maioria dos resultados em termos de design tem o valor do seu custo. As empresas do cluster deverão tentar recorrer a serviços profissionais para criar vinhos que são atractivos para os consumidores."
Relatório Porter

Fica um pequeno comentário a uma passagem do texto relativa ao próprio conceito de design (e que é como o público em geral o vê). Quando se diz "as garrafas fáceis de identificar e de design apelativo", distinguem-se duas funções que, na realidade, não devem existir em separado. O conceito global de design incorpora essas funções. Isto é, o design de uma garrafa deve contemplar a informação e a persuasão. Erradamente, atribui-se ao design apenas valor estético quando é pela globalidade de funções que ele se afirma e se distingue da arte e da decoração.