O pior que pode acontecer ao autor de uma "grande" ideia é constatar que outro a teve primeiro. E, pior ainda, é ter evidenciado vaidade com a sua grandeza.
No artigo sobre o vinho 8, da Adega Mayor, transcrevemos a ideia que presidiu à justificação do nome e da estratégia de comunicação: "No dia 08/08/2008 o mundo assistiu à abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Nesse mesmo dia, às 8 da manhã em Portugal, 8 pessoas começaram a encher a primeira de 8008 garrafas numeradas, celebrando o espírito da criação." Recebemos, dias depois, um comentário de um amigo, com o seguinte relato sobre a empresa 9: "Em 1999, às 9 da noite, estavam sentadas a uma mesa, 9 pessoas que decidiram abrir uma nova agência de comunicação. Os 9 sócios definiram que a agência tinha que ser original. Importaram um conceito de sucesso nos EUA, mas que seria uma novidade em Portugal. Assim nasceu a 9 The Creative Shop."
Felizmente os números são infindáveis. Tal como a espiral das ideias. Contudo, não podemos deixar de nos interrogar se essas "grandes" ideias que se vendem por aí, como sendo as mais originais na comunicação do vinho, não servirão apenas para cobrir a nudeza do rei.
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quarta-feira, 6 de abril de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
O excesso de "brand" no vinho
A ideia de marca (brand, para quem gosta do termo em inglês) persegue-nos por todo o lado. Da garrafa de água ao molho de coentros, passando pelos serviços e iniciativas estatais (Simplex, Allgarve), todos os produtos, naturais ou processados, bons ou maus, essenciais ou inúteis, parecem estar hoje condenados ao implacável "espírito da identidade".
Os vinhos portugueses não são excepção. Centenas de novos produtores multiplicam todos os anos nomes, categorias, sub-categorias de nomes de vinhos regionais e, ultimamente, vinhos de mistura de regiões e até vinhos "apátridas". Uma confusão para o consumidor menos atento já que até os vinhos de um mesmo produtor se apresentam com imagens distintas e distantes entre si. Investe-se cada vez mais no design e no "conceito" dos nomes. Todos procuram "algo diferente". Para isso elaboram-se narrativas e, quantas vezes, discursos sem essência (ver texto anterior), mas para quê? Para que um determinado vinho, semelhante a tantos outros, pretenda um significado para o qual não tem potencial. A excessiva e forçada individualidade imposta aos produtos denuncia quase sempre o contrário: ausência de carácter.
A empresa japonesa MUJI, recentemente chegada a Portugal (que nada tem a ver com vinhos, embora no Japão se dedique também à alimentação), apostou há mais de trinta anos na inversão deste processo. O nome MUJI, sendo ele já uma marca, significa "sem marca". Esta aparente incoerência não mancha o essencial, que aqui se pretende relevar: o investimento que a empresa faz não numa filosofia de marca mas antes no design, na qualidade global de cada produto que vende. E a preços razoavelmente justos.
Por tudo isto podemos afirmar que faz falta aos vinhos portugueses um pouco da estratégia MUJI. A exemplo do excesso de madeira no vinho que caracterizou a nossa produção nos últimos anos – e que felizmente passou de moda –, esperemos que o mesmo suceda ao excesso de identidade, de efeitos visuais, de marcas e de nomes. Que a lógica e a credibilidade da comunicação vinguem pelo mais importante: a qualidade do vinho. Já que mais não seja para bem dos consumidores.
Os vinhos portugueses não são excepção. Centenas de novos produtores multiplicam todos os anos nomes, categorias, sub-categorias de nomes de vinhos regionais e, ultimamente, vinhos de mistura de regiões e até vinhos "apátridas". Uma confusão para o consumidor menos atento já que até os vinhos de um mesmo produtor se apresentam com imagens distintas e distantes entre si. Investe-se cada vez mais no design e no "conceito" dos nomes. Todos procuram "algo diferente". Para isso elaboram-se narrativas e, quantas vezes, discursos sem essência (ver texto anterior), mas para quê? Para que um determinado vinho, semelhante a tantos outros, pretenda um significado para o qual não tem potencial. A excessiva e forçada individualidade imposta aos produtos denuncia quase sempre o contrário: ausência de carácter.
A empresa japonesa MUJI, recentemente chegada a Portugal (que nada tem a ver com vinhos, embora no Japão se dedique também à alimentação), apostou há mais de trinta anos na inversão deste processo. O nome MUJI, sendo ele já uma marca, significa "sem marca". Esta aparente incoerência não mancha o essencial, que aqui se pretende relevar: o investimento que a empresa faz não numa filosofia de marca mas antes no design, na qualidade global de cada produto que vende. E a preços razoavelmente justos.
Por tudo isto podemos afirmar que faz falta aos vinhos portugueses um pouco da estratégia MUJI. A exemplo do excesso de madeira no vinho que caracterizou a nossa produção nos últimos anos – e que felizmente passou de moda –, esperemos que o mesmo suceda ao excesso de identidade, de efeitos visuais, de marcas e de nomes. Que a lógica e a credibilidade da comunicação vinguem pelo mais importante: a qualidade do vinho. Já que mais não seja para bem dos consumidores.
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marca,
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Credibilidade
Não nos agrada a ideia de que o carácter dos vinhos portugueses possa ser "mandado à fava" em favor de estratégias de marketing (que se consideram sempre as mais modernas e de maiores probabilidades de retorno imediato).
Somos muito críticos relativamente à actual má imagem dos vinhos portugueses mas também não somos favoráveis ao entusiasmo de alguns, que alinham pelos "belos exemplos australianos ou californianos". Dizemos belos porque o são de facto, graficamente... A sua criatividade, artística e comunicacional — mesmo na vertente mais informativa —, surpreende-nos a todo o momento. Contudo, quantas vezes não nos interrogamos se não estamos antes na presença de embalagens (o termo "packaging" torna-se parolo, pretensioso, na língua portuguesa) de perfumes ou de óleos de massagens, de brindes publicitários ou, quando muito, de tisanas adocicadas ou licores de tudo?! Para esses estrategas pouco importará desenhar, promover, vender, consumir o vinho como se fosse refrigerante; como se o grafismo, a imagem, o conceito, a cultura em si pudessem ser subvertidos e submetidos a esses travestismos.
A credibilidade, tão em falta na sociedade contemporânea e no design em particular, vê-se assim ainda mais ameaçada. Ser credível em design (como no vinho, nos negócios, na vida) é um imperativo ético, que se repercute valorizando as relações humanas e a nossa sociedade em geral.
Somos muito críticos relativamente à actual má imagem dos vinhos portugueses mas também não somos favoráveis ao entusiasmo de alguns, que alinham pelos "belos exemplos australianos ou californianos". Dizemos belos porque o são de facto, graficamente... A sua criatividade, artística e comunicacional — mesmo na vertente mais informativa —, surpreende-nos a todo o momento. Contudo, quantas vezes não nos interrogamos se não estamos antes na presença de embalagens (o termo "packaging" torna-se parolo, pretensioso, na língua portuguesa) de perfumes ou de óleos de massagens, de brindes publicitários ou, quando muito, de tisanas adocicadas ou licores de tudo?! Para esses estrategas pouco importará desenhar, promover, vender, consumir o vinho como se fosse refrigerante; como se o grafismo, a imagem, o conceito, a cultura em si pudessem ser subvertidos e submetidos a esses travestismos.
A credibilidade, tão em falta na sociedade contemporânea e no design em particular, vê-se assim ainda mais ameaçada. Ser credível em design (como no vinho, nos negócios, na vida) é um imperativo ético, que se repercute valorizando as relações humanas e a nossa sociedade em geral.
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