Habituámo-nos (e ainda bem) a reconhecer que em design o autor não é o mais importante. Por detrás dos artefactos ou mensagens eficazes, o anonimato credibiliza ainda mais as suas qualidades. Já quanto à obra artística (essencialmente a contemporânea), sem o referente autoral perde valor e sentido: dessacraliza-se.
Os rótulos dos Esporão Reserva e Private Selection são bem desenhados e marcam a diferença. E são rótulos de artista. Desde o seu lançamento, em todos as publicações onde apareceram, se deu destaque à autora das imagens neles reproduzidas – Joana Vasconcelos. Reconhecida hoje como uma das artistas mais mediáticas em Portugal, Joana Vasconcelos precisa do estatuto autoral, e da fama, para que a sua obra se afirme. O seu trabalho não reflete o apego oficinal (ainda que dele se sirva) das belas-artes tradicionais; procura antes na formalização das ideias que trabalha, o seu sentido e a sua expressão. E não se torna relevante se produz composições/narrativas com plásticos, rendas ou tachos; se falam de luxo, da condição feminina ou de outras mitologias. Desligadas da autora, as obras de Joana Vasconcelos não resistiriam e correriam o risco de serem lidas como uma espécie de objetos Guinness of Records. O "não fazer" material – do desenho, da habilidade, do tique ou da expressão plástica – precisa quase sempre, para se aplaudir, que se abra a cortina autoral (para além da literatura e do marketing, claro).
Acontece que o autor da imagem global dos rótulos em causa é um designer. Mas, como se reconheceu no início deste texto, a sua invisibilidade imperou e o designer/autor nunca foi referido nas notícias. Nem precisava. Contudo, foi a excelente qualidade do design dos rótulos que permitiu que Joana Vasconcelos brilhasse. Sabemos nós que foi Eduardo Aires quem desenhou os rótulos: escolheu as peças, trabalhou as imagens, compôs o texto, definiu processos de impressão, coordenou e aprovou resultados. Resumindo, projetou.
Se o design gráfico se limitasse a uma mera operação técnica – como muitos ainda o entendem – jamais a qualidade dos rótulos Esporão seria esta!
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sexta-feira, 1 de julho de 2011
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Branca de Almeida/Bela Silva
A imagem do vinho Branca de Almeida Tinto 2004, da Herdade dos Coelheiros, merece um elogio. O seu rótulo apresenta, em diálogo coerente e de bom gosto, informação e poética. Impresso num papel de qualidade e a ouro — adequados a um vinho de preço considerável —, nele se combina a imagem pictórica da artista Bela Silva com a informação bem desenhada (composição clássica do texto, em triângulo, encimada pela elegante marca tipográfica da casa produtora). A reprodução, em estilo art déco, mostra uma cena (aparente) de caça, em tons avermelhados. Remete para a pintura alegórica, pelo seu carácter simbólico, propondo uma leitura aberta: duas figuras femininas conversam montadas num cavalo com cabeça de cão, alheadas dos cães e gamos que as rodeiam.
Merece, também, nota positiva a caixa que acompanha a garrafa. Embalagem global que constitui uma bela oferta ao mesmo tempo que dignifica o investimento no vinho.
O único senão prende-se com o chamado contra-rótulo: não se entende a opção pelo tipo Kabel para o texto descritivo. A relação entre o estilo da pintura e do tipo de letra — art déco — não se justifica para um texto informativo tão extenso. A sua composição não acompanha a qualidade do rótulo, apresenta aberturas (pela coluna de texto justificada e sem hifenização), e uma relação corpo/entrelinha negligente. A corrigir numa próxima edição.
Depois da crítica negativa aos rótulos que reproduzem imagens de artistas com design insípido ou descaracterizado, a imagem do vinho Branca de Almeida vem provar que as artes plásticas (pintura, desenho) ou a ilustração podem potenciar o carácter, a comunicação e o valor de um vinho desde que os requisitos de design global sejam assegurados.
Merece, também, nota positiva a caixa que acompanha a garrafa. Embalagem global que constitui uma bela oferta ao mesmo tempo que dignifica o investimento no vinho.
O único senão prende-se com o chamado contra-rótulo: não se entende a opção pelo tipo Kabel para o texto descritivo. A relação entre o estilo da pintura e do tipo de letra — art déco — não se justifica para um texto informativo tão extenso. A sua composição não acompanha a qualidade do rótulo, apresenta aberturas (pela coluna de texto justificada e sem hifenização), e uma relação corpo/entrelinha negligente. A corrigir numa próxima edição.
Depois da crítica negativa aos rótulos que reproduzem imagens de artistas com design insípido ou descaracterizado, a imagem do vinho Branca de Almeida vem provar que as artes plásticas (pintura, desenho) ou a ilustração podem potenciar o carácter, a comunicação e o valor de um vinho desde que os requisitos de design global sejam assegurados.
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Branca de Almeida Tinto 2004
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Rótulos de artistas (2)
Quando no artigo anterior afirmámos que o design do rótulo Pequeno Pintor 2006 é muito mau, nomeadamente quanto ao seu texto manuscrito — de mau desenho —, referiamo-nos ao exemplar que se mostra. As letras, tipográficas ou caligráficas, exigem saber e habilidade… A merecer urgentemente uma mudança.
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Pequeno Pintor 2006
domingo, 2 de maio de 2010
Rótulos de artistas
Um artista, hoje, encontra normalmente a solução para a sua actividade quando se encanta com um problema. Um designer, pelo contrário, ao partir de um problema, encanta-se com a solução para o resolver. Assim se entende, de uma forma muito singela, a diferença entre arte e design. Ambas as disciplinas recorrem a elementos discursivos, meios e técnicas semelhantes mas é no objectivo que perseguem que se encontra a grande diferença. O objectivo funcional, de enfatizar a importância do programa, da informação e da leitura em detrimento do autor, da expressão e da interpretação faz toda a diferença. E define o design como uma arte assumidamente aplicada. Um rótulo, ou uma imagem global de um vinho, terá que obedecer sempre a um programa bem definido: que tipo de vinho?, que região?, que terroir?, que características (orgânicas, técnicas e simbólicas)?, que implicações normativas?, que consumidores?, que nome?, que pretensões tem quem o trabalha?, etc. São questões como estas que determinam um programa e que requerem, para a sua equação e resposta, uma prática analítica, metódica e projectual exigente. Que obriga a conhecimento específico, nomeadamente de design gráfico e tipografia (maior mal dos rótulos portugueses) para lá da iconografia, das técnicas de impressão, de uma cultura própria, etc. Além de uma disposição natural para lidar com constrangimentos e dialogar com clientes. A tudo isto um artista responde normalmente com dificuldade. Não está na natureza do seu trabalho.
Os rótulos da marca Monte do Pintor da Sociedade Agrícola da Sossega, Lda são pobres visual e funcionalmente: Escultor, Monte do Pintor Reserva, Monte do Pintor e Pequeno Pintor. A qualidade do seu design fica muito aquém da excelência do seu vinho: iconografia insípida (esboço de sobreiros, demasiado primário); texto manuscrito de mau desenho (no rótulo "Pequeno Pintor 2006" é mesmo muito mau); tipografia do chamado contra-rótulo pouco exigente. Resultado: carácter, expressão e impacto visual mudos. Contudo, a empresa exprime com algum entusiasmo no seu site (de design igualmente débil) que os rótulos "são de autoria do Escultor Português João Cutileiro"! Não questionamos o reconhecimento e importância do artista na história da arte portuguesa do séc. XX — nomeadamente na renovação da escultura e até da estatuária portuguesa nas décadas de 60 e 70 —, mas pomos em causa o valor/resultado da sua contribuição. Percebemos as ligações apetecíveis entre o vinho e o prestígio do artista, o Alentejo comum, e outras que porventura desconhecemos; mas nada justifica a má solução apresentada.
Num bom design, todas as ampliações de sentido podem acontecer depois de cumpridas as exigências do seu programa básico. Programa esse determinado sempre pelo objectivo, independente da maior ou menor disposição que cada autor tem para lidar com os constrangimentos inerentes.
Os rótulos da marca Monte do Pintor da Sociedade Agrícola da Sossega, Lda são pobres visual e funcionalmente: Escultor, Monte do Pintor Reserva, Monte do Pintor e Pequeno Pintor. A qualidade do seu design fica muito aquém da excelência do seu vinho: iconografia insípida (esboço de sobreiros, demasiado primário); texto manuscrito de mau desenho (no rótulo "Pequeno Pintor 2006" é mesmo muito mau); tipografia do chamado contra-rótulo pouco exigente. Resultado: carácter, expressão e impacto visual mudos. Contudo, a empresa exprime com algum entusiasmo no seu site (de design igualmente débil) que os rótulos "são de autoria do Escultor Português João Cutileiro"! Não questionamos o reconhecimento e importância do artista na história da arte portuguesa do séc. XX — nomeadamente na renovação da escultura e até da estatuária portuguesa nas décadas de 60 e 70 —, mas pomos em causa o valor/resultado da sua contribuição. Percebemos as ligações apetecíveis entre o vinho e o prestígio do artista, o Alentejo comum, e outras que porventura desconhecemos; mas nada justifica a má solução apresentada.
Num bom design, todas as ampliações de sentido podem acontecer depois de cumpridas as exigências do seu programa básico. Programa esse determinado sempre pelo objectivo, independente da maior ou menor disposição que cada autor tem para lidar com os constrangimentos inerentes.
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Monte do Pintor
terça-feira, 20 de abril de 2010
Artistas e rótulos
Nenhum rótulo de vinho ganha eficácia ou eloquência por inserir, chapado, o "cromo" de um artista famoso. A reprodução de obras de artistas célebres tem sido, ao longo dos tempos, uma tendência de algumas casas/marcas de vinhos como recurso e estratégia visual. São sobejamente conhecidos os rótulos da casa Château Mouton Rothschild que, desde 1946, reproduzem obras de Dalí, Miró, Chagall, Kandinsky, Picasso, Andy Warhol... Em Portugal, obras de Cargaleiro, Resende, Pomar, Siza Vieira, José de Guimarães, Cabrita Reis, etc., têm aparecido nos últimos anos estampadas em rótulos de várias casas produtoras. Tentativa de prestigiar o vinho através das Belas-Artes (as ditas nobres), reconhecemos contudo que, na maioria das vezes, a qualidade comunicativa desses rótulos não apresenta qualquer valor acrescido para além da estampa mais ou menos famosa que exibem. É estritamente sobre os planos simbólico (do prestígio do autor) e decorativo (do valor plástico) que estas imagens actuam. Design e arte apresentam assim, normalmente, dois discursos paralelos — que não se encontram. Ainda que o discurso gráfico-plástico de cada artista seja notoriamente distinto ou eloquente, o resultado global pode ver anulada essa característica quando o design do rótulo se revela insípido ou mesmo mau.
Defendemos a ideia que o melhor design (em qualquer artefacto ou mensagem) é aquele que nos permite estabelecer o maior número de ligações de sentido. Se se pretende ancorar a expressão e o prestígio de um determinado artista ao vinho ou à empresa, a solução terá de passar por um projecto coordenado por um designer competente. Um rótulo é sempre um dispositivo de design visual. Texto, imagem e vinho — ou design, arte e vinho — sendo bem distintos, podem conviver em perfeita sintonia desde que se compreendam e não se atropelem. Todos ganham se as ligações forem perfeitas.
Defendemos a ideia que o melhor design (em qualquer artefacto ou mensagem) é aquele que nos permite estabelecer o maior número de ligações de sentido. Se se pretende ancorar a expressão e o prestígio de um determinado artista ao vinho ou à empresa, a solução terá de passar por um projecto coordenado por um designer competente. Um rótulo é sempre um dispositivo de design visual. Texto, imagem e vinho — ou design, arte e vinho — sendo bem distintos, podem conviver em perfeita sintonia desde que se compreendam e não se atropelem. Todos ganham se as ligações forem perfeitas.
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