Mostrar mensagens com a etiqueta Tipografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tipografia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Letras "espremidas" - Nota breve II

O autor dos rótulos Quinta da Revolta, do produtor Veredas do Douro Sociedade Agrícola Lda, deveria saber que as letras não são uvas e, por isso, não se devem "espremer". Um tipo de letra, qualquer que ele seja, tem uma autoria e deu trabalho a desenhar, a conseguir a sua proporção, a sua identidade. Que outros, por desconhecimento do que isso representa, lhe destruam a matriz, a eficácia e a harmonia — condensando-o ou expandindo-o — é mau e é, quase sempre, um "crime" que não compensa. Se a justificação é a falta de espaço, existem, e aconselham-se, versões condensadas ou expandidas de origem, em vez do recurso a deformações grosseiras.

O tipo de letra Optima, usado no caso que se ilustra, é um dos desenhos de letra mais originais do reconhecido designer tipográfico alemão Hermann Zapf.  Executado nos anos 50, ainda hoje mantém um uso considerável e a preferência de muitos designers gráficos. Sujeito a várias imitações e derivações, este tipo humanístico não serifado (sem patilhas) possui, por isso mesmo, um estatuto de grande originalidade genética.

Casos como este demonstram uma grande falta de cultura, de rigor profissional e nenhum respeito pelo trabalho de um "colega". E vistos por este prisma, revolta!


domingo, 31 de outubro de 2010

"Rotulus" Brutalis

O vinho Brutalis 2005, das Caves Vidigal (Leiria), afirma-se ostensivamente como um vinho distinto. Uma ideia que nos agrada sobremaneira. Declara, no seu contra-rótulo, que é contra a globalização e massificação tipológica a que hoje vamos assistindo nos vinhos. De facto, o sentido comercial tem determinado o esbater das diferenças no actual panorama do vinho. É que vinhos para se beberem a todas as horas, e em quaisquer circunstâncias, tendem a ser vinhos com menor carácter. Sabemos que fazer dinheiro com a venda de vinho será semelhante a fazer dinheiro com a venda de um outro produto qualquer. E isso implica forçosamente estratégias de padronização e quantidade. Estratégias que vendem mas que serão contrárias à produção singular, que segue o terroir e as características regionais das castas, da cultura local e do clima.

O Brutalis, ao pretender ser um grito contra essa padronização, apresenta uma imagem que não ajuda. Ainda que lembre remotamente um manifesto — o que seria interessante e coerente —, as componentes gráfica, expressiva e técnica do seu rótulo são de má qualidade. Ausência de critério nas opções pelos diversos tipos de letra, nos seus pesos, na composição do texto (confusa e a preencher todo o espaço); terminando numa má impressão em papel duvidoso... Uma brutalidade (e não "brutal" de espanto, como se desejava), para usar o título do vinho.

Parece que os vinhos interessantes se vêem cada vez mais condenados a serem apenas vinhos simpáticos (à falta de outro adjectivo).  Tal como os rótulos. Fazem falta neste universo da massificação – vínica e gráfica – os gritos e os "manifestos". Mas apenas aqueles cujo conteúdo, propósito, rigor de discurso e de forma se assumam por inteiro e com coerência. Senão viram-se contra si mesmos e confundem-se com mais uma birra de menino irreverente, mal educado.



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Galhofa tipográfica

Subsiste hoje, em Portugal, entre os jovens designers gráficos, uma febre pela tipografia que tarda em amainar... (Actualmente, chama-se tipografia ao estudo/saber e uso das letras. Não é mais a empresa que imprime os rótulos, as facturas ou os catálogos.) Esta área de conhecimento, que esteve arredada dos currículos académicos — mesmo os mais especializados — até à década de 70, afirmou-se pois tardiamente, tornou-se moda e encantou muitos designers. A ponto de os cegar. Pelo menos no que toca à visão das prioridades na comunicação escrita, isto é, sempre que a obsessão pela forma (desenho) das letras e sua composição (critérios de organização do texto) se sobrepõe ao conteúdo, à legibilidade e ao conforto visual do leitor. E, quantas vezes, ao próprio sentido da mensagem.

Temos referido com alguma insistência a má qualidade tipográfica dos rótulos e contra-rótulos dos vinhos portugueses. Mesmo os rótulos dos vinhos de qualidade e de preço elevado. E seria "tão fácil" seguir — no mínimo — critérios de rigor técnico quando não se conseguem atingir os da eloquência!... 

O rótulo do vinho Fraga da Galhofa, Douro 2007 Tinto (tal como o Branco e o Rosé), da Vinilourenço é, de facto, uma galhofa tipográfica. Representa o encantamento de que falávamos, traduzido na má expressão tipográfica. Alia uma miscelânea de corpos (tamanhos) de letras no título (quando a opção foi por um tipo clássico) à tentativa de figurar um galho de videira com parras e cacho de letras (!). Remete a informação que mais pode interessar ao consumidor para um formato legenda, na vertical, e em corpo menor. Resultado: rótulo pouco funcional, má ilustração, título anacrónico e desequilibrado e design global pouco sério. É que "galhofa" significa "brincadeira", "gracejo" ou "escárnio"... E se o nome da Fraga que dá título ao vinho já é "da Galhofa", será inapropriado acentuar o conceito. Um vinho sério e bem feito, como este, merecia um rótulo a condizer e não a imagem tipográfica que exibe.

Em jeito de conclusão, valerá a pena citar a máxima de um amigo: Letras são letras e conhaque é conhaque!