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domingo, 10 de janeiro de 2010

Modernidade

A condição "moderna" torna-se difícil de abordar sob uma perspectiva crítica mais profunda mas é facilmente compreendida se falarmos da imagem do vinho em Portugal. A contradição aparente entre inovação, carácter e tradição cultural, algumas vezes aqui evocados a propósito da má imagem gráfica dos vinhos portugueses, encontra sentido nas palavras de Yvette Centeno: "não há inovação sem tradição, como não há cultura sem memória". Ser moderno não é estar de acordo com a moda nem importar modelos. É antes sermos capazes de actualizar sem recorrer a esses modelos. Actualizar é trabalharmos com o pensamento e os argumentos, as técnicas e os dispositivos do nosso tempo e da nossa cultura. Mas para actualizarmos a nossa cultura será necessário descobri-la e conhecê-la. Ser moderno é, sobretudo, sabermos absorver essa informação de forma crítica e criativa e operarmos mudança — a mudança é, pois, o pressuposto de toda a condição moderna.

Vem isto a propósito de um presente natalício que recebemos de um amigo: uma garrafa de Miura 2007, Douro Tinto, da Quinta de Tourais. A imagem genérica dos vinhos Quinta de Tourais propõe uma comunicação moderna e expressiva. (Mais tarde abordaremos o Tourónio Tinto, já premiado visualmente.) Vinhos de qualidade, de pequena produção, da região da Régua — e aqui no Miura em parceria com um grupo de amigos associados — que apostam com o mesmo entusiasmo na sua imagem visual. (Estamos em crer que a mudança pode estar nos pequenos produtores. Sem as pesadas estratégias de marketing por trás, muitas vezes longe de provarem a sua validade, os pequenos produtores podem constituir-se como exemplo de futuro; mais facilmente investindo em bom design, ousando e desafiando.)


O exemplo do Miura Tinto 2007 mostra como o caminho pela contemporaneidade da imagem dos vinhos em Portugal pode evoluir sem perda de carácter. Alia a técnica antiga da serigrafia (impressão a branco sobre o vidro) com a expressão gráfica de síntese (icónica e tipográfica) e o discurso simbólico (remetendo não para a representação mas para a interpretação, que está para lá das formas). Tecnicamente irrepreensível na sua execução (não nos apercebemos de qualquer união na imagem envolvente), o resultado é um belo e intrigante entrelaçado, libertando toda a informação textual para a parte de trás da garrafa. (Apenas o reparo para a vastidão de espaço ocupado pela composição do texto. O conceito de síntese pedia maior contenção).


O Miura 2007, enquanto imagem global, é enigmático e apelativo, é elegante e complexo, absorve a tradição e reconstrói-a, informa correctamente e amplia sentidos...  Em suma, traz novos valores à nossa cultura.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um belo exemplo iconográfico

Na sequência da ideia aqui exposta sobre a credibilidade em design, trazemos o exemplo dos vinhos do Douro Churchill's Estates, cuja imagem, renovada recentemente por uma agência inglesa, constitui, em nosso entender, uma boa solução.

Os rótulos dos vinhos Churchill's Estates apresentavam já um grafismo cuidado (rótulos elegantes e criteriosos, com soluções tipográficas simples mas sérias). Contudo, a sua alteração recente, veio trazer-lhes maior expressão e carácter. Carácter esse que provém do recurso a uma iconografia semântica e plasticamente rica, embora partindo de um modelo tradicional. Os rótulos caracterizam-se por conterem, em dimensão ousada (nomeadamente o Quinta da Gricha), belas imagens a preto — texturas gráficas de penteados de vinhas — que nos revelam uma outra imagem do Douro. Esta visão aérea das quintas, longe do ponto de vista cliché dos socalcos ladeando o rio, alia informação à expressão (da ideia, da textura e da cor). A nova representação não trai o referente nem o seu carácter, antes os reafirma, e ensina-nos que a iconografia do Douro não se esgota nem precisa de perder o seu sentido, na ânsia de se "modernizar".


Para aqueles produtores que não reconhecem a necessidade de mudança na imagem dos seus vinhos (porque ainda não reconhecem o problema); para aqueles que insistem em nada mudar (e que usam argumentos pouco credíveis); ou ainda para aqueles que mudam mas que deixam tudo na mesma, ou pior, (porque seguem estratégias e opiniões de design pouco avalizadas): a nova imagem Churchill's Estates é um exemplo eloquente! E não será necessário deslocarem-se até às Ilhas Britânicas (de onde escrevemos este post) para lhe seguirem a eloquência.





segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A tradição do Douro e as modernices gráficas (II)

Para exemplificarmos o que foi dito na primeira parte deste artigo, escolhemos duas garrafas de estilos distintos do produtor Alves de Sousa. Premiado pela qualidade que tem apresentado nos vinhos que produz, deveria corresponder a semelhante exigência na imagem. (Um parêntesis para afirmarmos que nada nos move contra nenhum produtor, marca ou designer. Tentaremos sempre manter a distância jornalística no comentário, e sempre numa perspectiva construtiva. Uma coisa é certa: só falaremos da imagem de vinhos cuja garrafa bebamos até ao fim... E, mais fácil do que fazer um bom vinho, será alterar uma imagem gráfica.)















O Cume do Pereiro 2004, vinho tinto Douro de relação qualidade/preço apreciável, destaca-se por apresentar um rótulo excêntrico, uma "modernice" que parece contrariar o carácter do Douro. Ao apoiar a sua estratégia visual numa forma (um cortante especial), pretende sobressair pela novidade, esquecendo que a novidade por si só não constitui qualquer valor, ainda mais quando é semântica e plasticamente pobre. Trata-se de uma evocação estilizada — mas literal — do cume de um monte. É também uma forma desajustada em relação ao suporte (garrafa). A tipografia escolhida, geométrica e de estilo temporal marcante (Avant Garde, final dos anos 60), segue o mesmo critério anacrónico. Sob o ponto de vista informativo — e é este, quanto a nós, o ponto principal para a avaliação de um rótulo — teremos que voltar a garrafa para obtermos a informação mínima necessária. Parte do próprio nome do vinho (do Pereiro) é omitida. O contra-rótulo é um exemplo claro da falta de rigor na organização dos conteúdos e no desenho da informação mas, acima de tudo, de pouco respeito pelo leitor.

O segundo exemplo é o Quinta do Vale da Raposa Touriga Nacional 2005. Este vinho tinto do Douro, de preço mais elevado e com boas notas de classificação, mostra bem a diferença de qualidade que existe entre um conteúdo e um contentor. O seu rótulo aponta para uma maior sobriedade, seguindo uma opção tipográfica. Porém, o resultado global não afirma o carácter do vinho, antes evidencia fragilidades que denunciam o seu grafismo amador: a composição do título, à esquerda do rótulo, contraria a ordem sugerida pelo seu alinhamento central; apresenta uma hierarquia excessiva, com corpos (tamanhos de letra) desajustados; tem erros de composição (o entrelinhamento do texto é descuidado e na primeira linha do título, o espaço antes da palavra "do" é incompreensível); já para não falarmos do estranho elemento (tipo?)gráfico que domina o rótulo. O que é? E que justificação dar à repetição do nome no seu interior, agora fragmentado e em caixa baixa? (Qualquer imagem que nada acrescente à informação, transforma-se em ruído. E se não for entendida minimamente torna-se um equívoco.) Usar vernizes e relevos encarece um rótulo mas não lhe traz qualidade, se o que se enverniza ou releva não promover sentido. O contra-rótulo, uma vez mais, denuncia a falta de qualidade global, apresentando o texto principal negativado, alinhado à direita (erro comum de quem não tem em conta o leitor), já para não falarmos da sua dupla orientação (horizontal e vertical) e da diferença notória na qualidade do papel.

Outros exemplos mereciam críticas semelhantes como os Quinta da Estação, os Reserva Pessoal ou o Quinta da Gaivosa Vinha do Lordelo. Fica ainda uma nota incontornável: a imagem de identidade "Alves de Sousa" (logótipo) merece ser alterada quanto antes. Espelha precisamente as incongruências e o grafismo amador do que atrás se mencionou: desnecessária "mixórdia" tipográfica em caixa baixa, em algo que deveria representar seriedade e credibilidade institucional, principalmente para que tem demonstrado exigência e qualidade nos vinhos que apresenta.

Para terminar, e generalizando, não cremos que o mau resultado visual da imagem dos vinhos Douro seja apenas culpa de amadores com um computador à frente, ou de jovens designers (talvez os que não apreciam vinho), ou dos responsáveis pela promoção e pelo marketing que os encomendam... Dói que sejam os próprios produtores a aprovar, mas mais ainda, a rever-se nessas "pérolas". É que a qualidade de um qualquer produto ou artefacto emana de todas as suas "artes". Compete saber o lugar de cada uma.

domingo, 29 de novembro de 2009

A tradição do Douro e as modernices gráficas (I)

Quem gosta de beber um bom vinho sabe do que falamos quando falamos de Douro, da região demarcada mais antiga do Mundo, hoje Património Mundial pela UNESCO. Esse peso — herança e crédito — deveria ser, por isso mesmo, bem entendido por todos os intervenientes que no Douro e para o Douro trabalham. Só assim se reforçará o seu carácter identitário. Mas, se os que lá se mantêm, ligados ao território, dificilmente o esquecem, já outros longe, reunidos em gabinetes ou em frente a ecrãs de Mac's, parecem desconhecer esse programa e esse poder. Porque de verdadeiro poder simbólico se trata.

Ainda que se tenham verificado nestas últimas décadas mudanças significativas na região do Douro — nomeadamente a expansão dos vinhos Douro e o fervilhar dos chamados Douro Boys — o que é certo é que a região, património do estatuto que transporta, se mantém com o mesmo carácter de tradição. E entendemos "tradição" não como atitude reactiva à modernidade necessária e inevitável, mas antes condição que emana de múltiplos factores culturais. Estabelecendo um paralelismo com o design visual, diríamos que o carácter de tradição do Douro é semelhante ao tipo de letra Trajan (aplicado no título deste blogue). Este tipo clássico, inspirado na inscrição da base da coluna de Trajano (Roma, 113 d.C.), foi desenhado pela americana Carol Twombly em 1989, com tecnologia moderna, para servir em dispositivos actuais.

Se tivermos que resumir hoje, em palavras, as características globais dos vinhos da Região do Douro, facilmente concordaremos com os vocábulos: tradição, carácter, complexidade, elegância. Espera-se que um profissional de comunicação visual estabeleça uma correspondência inteligente entre o verbo/conceito global e a imagem a projectar, atentando depois na especificidade de cada vinho.

Não será pois de estranhar o nosso espanto, ao vermos no mercado, e a preços elevados, incoerências visuais que contrariam frontalmente o que atrás se disse. Numa visita à secção de vinhos de um bom supermercado (El Corte Inglés, Gaia/Porto), em duas alas generosas de prateleiras dedicadas ao Vinho Douro e em duas menores dedicadas ao Porto, verificámos que apenas menos de vinte por cento das garrafas correspondem àquele desígnio simbólico, possuidor de uma qualidade visual exigente. A mediania e a banalidade caracteriza uma faixa bem mais larga. Mas, por último, surge um grupo, penosa e injustificadamente elevado, onde reina a falta de qualidade e rigor informativo, a falta de qualidade gráfica e plástica e uma total ausência de coerência simbólica. Infelizmente, esta falta de atributos não se confina aos vinhos de gama baixa; o problema é transversal e começa também a tomar conta dos Vinhos do Porto (até há bem pouco tempo um oásis visual, sob domínio da tradição britânica, e que numa próxima ocasião tentaremos abordar).